— ensaio —

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Em cada batida silenciosa do relógio, sinto o tempo escorrer como areia entre os dedos.

Há uma ansiedade muito humana em tentar agarrar os momentos, fixá-los na memória, dar forma ao que ainda está acontecendo, como se fosse possível capturar a essência de um sonho antes que ele desapareça ao despertar. Queremos entender enquanto vivemos. Queremos prever enquanto caminhamos. Queremos moldar o destino conforme a nossa vontade, como se a vida fosse uma matéria dócil nas mãos de quem sabe planejar.

Mas a vida não é dócil.

E talvez essa seja uma das primeiras grandes humilhações da maturidade: perceber que nem tudo se curva à nossa intenção.

Durante muito tempo, eu acreditei na força da estrutura. Ainda acredito. Não sou alguém que romantiza o caos. Pelo contrário. Minha forma de existir passa muito por organizar, mapear, dar nome, criar fluxo, transformar confusão em método. Existe em mim uma necessidade quase vital de entender o sistema por trás das coisas.

Quando vejo uma operação bagunçada, quero desenhar o processo.
Quando vejo potencial disperso, quero criar uma arquitetura.
Quando vejo uma vida em transição, quero encontrar o fio condutor.
Quando vejo o caos, minha primeira reação é perguntar: qual é a forma possível aqui?

Isso é dom, mas também é armadilha.

Porque quem aprende a organizar muita coisa pode começar a acreditar, em algum lugar secreto de si, que se a estrutura for boa o bastante, a vida vai obedecer.

Não obedece.

A vida conversa com nossas estruturas. Às vezes coopera. Às vezes ignora. Às vezes atravessa tudo como uma tempestade que não leu nosso planejamento.

Aprendi isso de maneira brutal no Chile.

Antes da pandemia, eu estava em Punta Arenas, no extremo sul do continente, trabalhando no Hotel Finisterra, da Best Western. Eu atuava na recepção, em turnos alternados: manhã, tarde, madrugada. Era uma rotina corrida, com um dia de descanso por semana, corpo sempre ajustando ao relógio, ao hóspede, ao check-in, ao check-out, ao movimento da cidade.

Mas, para mim, aquilo tinha um peso maior do que apenas um emprego.

Eu vinha de uma longa travessia pela Patagônia. Tinha passado por lugares onde trocava trabalho por hospedagem, cuidava de espaços, fazia pequenos serviços, improvisava caminhos. Antes de Punta Arenas, trabalhei em hostel em Córdoba, em Mendoza, em Santiago. Em outros trechos, ajudei a gerir casas, cabanas, hospedagens, estruturas pequenas de recepção e acolhimento. Havia uma linha se formando, mesmo que eu ainda não a enxergasse por completo.

No início, quando cheguei a Punta Arenas, fiz o que apareceu. Trabalhei como garçom. Depois passei pela Zona Franca, numa área de marketing que, de certa forma, me fazia sentir voltando a trabalhos de época de estágio, tarefas que já não conversavam com o que eu era ou com o que eu poderia construir.

Então veio o hotel.

E o hotel mudou a chave.

Ali, finalmente, algo começou a encaixar. Eu tinha salário, rotina, função, contato com viajantes, movimento internacional, línguas, histórias cruzando o balcão. E, além do trabalho na recepção, havia a possibilidade de vender tours para os hóspedes. No começo, talvez parecesse apenas uma comissão a mais. Mas, para mim, aquilo abriu uma porta.

Eu percebi que dava para fazer mais.

Comecei a vender passeios. Depois programas turísticos. Depois comecei a me envolver mais diretamente com o turismo. Turistas chegavam pelos cruzeiros, pelo porto, e eu fazia city tours, saídas guiadas, experiências pela cidade. Não era apenas uma venda. Era uma extensão de tudo que eu vinha vivendo desde que tinha saído do Brasil: hostels, viajantes, mapas, línguas, hospitalidade, improviso, paisagem, encontro.

Eu estava transformando minha própria travessia em ofício.

E então comecei a ganhar dinheiro. Muito dinheiro, para o contexto em que eu estava. Mais do que isso: comecei a ver uma estrutura possível. Passei a correr atrás do que precisava para formalizar uma agência. Comecei a pensar em crescimento, em operação, em oferta, em futuro. A vida, que por tanto tempo parecia improvisada, começava a ganhar forma.

Era como se todos aqueles anos dispersos, de hostel em hostel, de trabalho em trabalho, de cidade em cidade, finalmente encontrassem um eixo.

E talvez seja aí que a ilusão de controle se torna mais sedutora: quando as coisas começam a dar certo.

Quando tudo está dando errado, a gente sabe que não controla muita coisa. Mas quando o plano começa a funcionar, quando o dinheiro entra, quando a oportunidade cresce, quando a experiência acumulada parece finalmente fazer sentido, surge uma confiança silenciosa. A gente começa a acreditar que entendeu o caminho.

Eu estava nesse ponto.

Hotel, turismo, agência, cruzeiros, vendas, comissões, crescimento. Tudo parecia apontar para uma ascensão real.

Até que, um dia, recebi a notícia: havia uma pandemia.

No começo, como quase todo mundo, talvez eu não tenha entendido o tamanho do que estava vindo. Ninguém entende o desabamento no primeiro ruído. Mas então vieram os fechamentos. O aeroporto fechou. O hotel fechou. Os cruzeiros pararam. O turismo evaporou. A agência, que estava começando a tomar forma, perdeu o chão antes mesmo de amadurecer.

Da noite para o dia, não havia mais barco.
Não havia mais hóspede.
Não havia mais balcão.
Não havia mais tour.
Não havia mais hotel.
Não havia mais turismo.
Não havia mais nada.

A base inteira sobre a qual eu estava construindo meu futuro desapareceu.

Não por incompetência.
Não por erro estratégico.
Não por falta de esforço.
Não por preguiça.
Não porque eu não tinha planejado.

Simplesmente porque o mundo fechou.

Essa é uma das experiências mais desconcertantes que alguém pode viver: descobrir que pode fazer tudo certo dentro do seu alcance e, ainda assim, ser atravessado por uma força maior do que qualquer plano.

A pandemia afetou todo mundo, é claro. Mas cada pessoa foi atingida em um ponto específico da própria estrutura. Em mim, ela atingiu justamente o lugar onde a vida começava a se organizar. Foi como se eu tivesse passado anos acumulando peças de um quebra-cabeça — hospitalidade, turismo, vendas, línguas, estrada, recepção, agência — e, quando finalmente comecei a ver a imagem se formando, alguém virasse a mesa.

Fiquei sem chão.

E essa expressão, às vezes, é literal.

Porque o chão não é apenas o lugar onde pisamos. Chão é aquilo que nos dá continuidade. É a rotina que sustenta a identidade. É o trabalho que organiza os dias. É a expectativa de futuro que nos faz levantar. Quando isso desaparece, não perdemos apenas uma renda ou um projeto. Perdemos uma versão possível de nós mesmos.

Eu precisei voltar.

Voltar ao Brasil. Voltar para São Paulo. Voltar para uma vida que já não era exatamente minha, mas que ainda era o lugar possível de retorno.

E ali comecei a entender, não como frase bonita, mas como ferida: controle não é soberania.

A gente pode criar estrutura, e deve. Pode planejar, e deve. Pode ler o cenário, organizar recursos, montar rotas, construir oferta, desenvolver habilidade, juntar dinheiro, abrir empresa, desenhar processo. Tudo isso importa.

Mas nada disso faz o destino assinar contrato.

O destino não deve obediência ao nosso planejamento.

Essa foi uma primeira grande lição.

Mas a vida raramente ensina algo uma vez só.

Anos depois, já em outro ciclo, a mesma verdade voltou com outro rosto.

Depois da pandemia, depois do retorno ao Brasil, depois da Chapada Diamantina, depois de tentar ainda alguma coisa no turismo e perceber que aquele capítulo já não tinha o mesmo ritmo, eu segui com mais força para a tecnologia. Sites, automações, CRM, operações digitais. Uma das empresas que me abraçou nesse período foi se tornando uma espécie de base. Eu trabalhava à distância, enquanto a equipe estava em São Paulo. Mesmo remoto, havia vínculo, construção, rotina, sensação de pertencimento.

A gente foi erguendo coisas.

Projetos, clientes, processos, entregas. Aos poucos, aquilo se tornou uma estrutura real. E, quando outras partes da minha vida ruíram, foi essa estrutura que me permitiu continuar. Eu pude abraçar aquele trabalho, sustentar minha rotina e, a partir dele, viver um 2024 em movimento.

E 2024 foi um ano lindo.

Viajei pelo Nordeste. Vivi encontros, paisagens, estradas, praias, cidades, experiências que pareciam me devolver algo de mim. Era um ciclo de expansão pessoal. Eu estava vivendo uma versão de liberdade que por muito tempo tinha sido apenas ideia: trabalhar de onde estivesse, atravessar lugares, organizar a vida sem estar preso a um endereço fixo.

Por fora, parecia ascensão.

Mas, por baixo, outra estrutura começava a ruir.

Enquanto eu vivia uma das fases mais bonitas da minha vida, a empresa que sustentava parte daquela liberdade começava a entrar em seu pior momento. No começo, eram sinais pequenos. Uma reunião estranha. Um cliente que caía. Uma pessoa que saía. Uma rotina que se quebrava. Uma confiança que diminuía. Um ruído que aparecia aqui, outro ali. Disse-me-disse, desgaste, desalinhamento, ausência de direção.

Nada desmorona de uma vez quando está tentando parecer de pé.

Às vezes, o colapso é lento.

E talvez por isso seja tão difícil de aceitar. Porque quando algo explode, a ruptura é evidente. Mas quando algo apodrece aos poucos, ficamos tempo demais tentando acreditar que ainda dá para sustentar. Ajustamos uma coisa aqui, outra ali. Fazemos concessões. Tentamos manter a rotina. Tentamos proteger o que funcionou. Tentamos preservar a imagem de uma estrutura que, no fundo, já começou a se desfazer.

Esse tipo de queda é diferente da pandemia.

A pandemia foi corte.

A empresa ruindo foi erosão.

Erosão é quando a terra vai desaparecendo debaixo dos pés sem que a gente consiga apontar exatamente o instante em que começou.

Em algum momento, ficou claro: aquilo também estava acabando.

E o curioso é que isso calhou com meu retorno a São Paulo, em 2025. Como se a estrada, mais uma vez, me levasse de volta ao ponto de origem carregando não apenas malas, mas ciclos inteiros que precisavam ser processados.

O que mais me marcou nesse contraste foi perceber que uma vida pode estar ascendendo em uma camada e desmoronando em outra.

A gente gosta de narrativas simples. Ou está tudo dando certo, ou está tudo dando errado. Ou estamos subindo, ou estamos caindo. Mas a vida real é mais complexa. Às vezes estamos vivendo beleza e instabilidade ao mesmo tempo. Expansão e perda. Liberdade e insegurança. Encantamento e ruptura.

Em 2024, havia um eu que viajava, conhecia lugares, sentia a vida se abrir.

E havia outro eu, mais silencioso, percebendo que a base profissional que sustentava aquilo estava se desfazendo.

Os dois eram verdadeiros.

Talvez seja isso que torne o controle tão ilusório: nós tentamos organizar a vida como se ela obedecesse a uma única linha narrativa. Mas ela acontece em camadas. Enquanto uma parte floresce, outra pode estar secando. Enquanto um ciclo começa, outro termina. Enquanto celebramos uma conquista, uma estrutura invisível pode estar rachando.

E então, novamente, a vida me colocou diante da mesma pergunta:

o que resta quando aquilo que eu tentei organizar deixa de responder?

Por muito tempo, achei que aceitar a falta de controle fosse uma forma de fraqueza. Como se admitir o mistério fosse desistir da própria vontade. Hoje vejo de outro jeito.

Aceitar que não controlamos tudo não significa abandonar a construção.

Significa construir com mais humildade.

Não é parar de fazer planos. É parar de idolatrá-los.

Não é renunciar à vontade. É entender que a vontade é força de navegação, não garantia de destino.

Não é viver à deriva. É aprender que até o melhor navegador precisa respeitar o mar.

A ilusão humana de controle nasce, muitas vezes, do medo. Temos medo de perder o que amamos. Medo de desperdiçar tempo. Medo de sermos surpreendidos por algo que não saberemos suportar. Medo de descobrir que nossas estruturas são mais frágeis do que pareciam. Então tentamos controlar pessoas, cenários, calendários, resultados, afetos, projetos, futuros.

Tentamos agarrar o tempo como areia entre os dedos.

Mas o tempo não se deixa agarrar.

Ele escorre.

E, ainda assim, algo em nós insiste. Porque controlar nos dá uma sensação temporária de segurança. Organizar nos dá a impressão de que o caos está do lado de fora. Planejar nos permite respirar. Criar sistema nos permite caminhar.

Eu não desprezo isso.

Seria incoerente desprezar. Boa parte da minha vida, do meu trabalho e da minha inteligência se construiu justamente na capacidade de criar sistemas. Mas talvez a maturidade esteja em diferenciar sistema de prisão, método de rigidez, planejamento de fantasia de domínio.

Um bom sistema não é aquele que impede o mundo de mudar.

É aquele que nos ajuda a responder quando o mundo muda.

Essa talvez tenha sido uma das lições mais importantes que essas rupturas me deram.

Controle, no sentido mais infantil, é tentar fazer a realidade obedecer.

Controle, no sentido mais maduro, é desenvolver presença, recurso e estrutura para continuar respondendo quando a realidade muda a pergunta.

A pandemia mudou a pergunta.

A empresa ruindo mudou a pergunta.

A estrada mudou a pergunta.

E eu precisei mudar junto.

Não de uma vez. Não com serenidade perfeita. Não como quem compreende tudo imediatamente. Muitas vezes mudei resistindo, reclamando por dentro, tentando salvar uma forma antiga, tentando encontrar no mapa uma rota que já não existia. Mas mudei.

Talvez a vida seja isso: uma longa negociação entre o que desejamos construir e aquilo que o tempo permite.

Ah, essa ilusão tão humana de controle.

Pensamos ser os senhores do caminho, arquitetos de cada passo. E há beleza nessa pretensão, porque sem ela talvez não construíssemos nada. Mas o destino, esse viajante misterioso, segue alheio aos nossos decretos. Traça linhas que não compreendemos, fecha portas que pareciam certas, abre desvios que pareciam absurdos, muda o vento quando finalmente aprendemos a velejar.

É como se lutássemos contra o vento sem perceber que o vento também participa da arquitetura.

Talvez a sabedoria não esteja em desistir do leme, mas em parar de confundi-lo com o mar.

O leme importa.

Mas ele não cria o oceano.

O desejo é uma bússola poderosa, mas o destino não se curva inteiramente às suas indicações. Ele segue, como o rio que não interrompe seu curso para atender ao clamor das margens. Podemos navegar melhor. Podemos aprender a ler correntezas. Podemos fortalecer o barco. Podemos escolher algumas rotas. Mas não podemos exigir que o rio deixe de ser rio.

Essa percepção, quando chega de verdade, não traz apenas paz. Às vezes traz luto.

Porque há uma tristeza em aceitar que certas versões da vida não acontecerão. A agência de turismo que poderia ter crescido. O futuro no Chile que poderia ter se estabilizado. A empresa que poderia ter permanecido. O ciclo que poderia ter continuado. A versão de nós que teria existido se o mundo tivesse colaborado.

Cada plano desfeito carrega um fantasma.

E talvez amadurecer seja aprender a honrar esses fantasmas sem morar com eles.

Reconhecer que houve ali uma vida possível. Que ela importou. Que ela nos moveu. Que ela nos ensinou. Mas que não será exatamente ela o caminho adiante.

O futuro não é apenas aquilo que realizamos.

É também aquilo que sobrevive ao que não pôde ser.

Hoje, quando penso em controle, não penso mais como antes. Não o vejo como domínio sobre o destino, mas como capacidade de reorganização. A verdadeira força não está em impedir que tudo desmorone. Às vezes isso não depende de nós. A verdadeira força está em aprender a reconstruir sem negar o desmoronamento.

Talvez seja por isso que continuo criando sistemas.

Não porque acredito que eles tornam a vida invulnerável.

Mas porque sei que, sem alguma forma, a travessia nos engole.

A diferença é que hoje tento construir formas mais vivas. Estruturas que respiram. Métodos que aceitam revisão. Planos que sabem que podem falhar. Rotas que incluem desvios. Arquiteturas que não negam o vento.

Porque o vento virá.

A pergunta é o que fazemos quando ele muda.

Caminhamos entre o nascer e o pôr do sol, entre o sonho e a realidade, entre o plano e o imprevisto. Buscamos sentido onde talvez só haja mistério. Mas talvez o sentido não esteja em vencer o mistério. Talvez esteja em caminhar com ele sem transformar tudo em inimigo.

Eu ainda planejo.

Ainda desenho sistemas.
Ainda organizo fluxos.
Ainda tento dar forma ao caos.
Ainda olho para o futuro como quem procura uma arquitetura possível.

Mas já não acredito, como antes, que a vida me deve obediência.

Hoje, talvez, eu apenas tente escutá-la melhor.

E responder com mais presença quando ela muda a rota.

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