Eu sempre tive desejo de movimento.
Antes de qualquer discurso sobre liberdade, antes de qualquer método, antes de qualquer sistema que hoje eu consiga desenhar com alguma clareza, havia em mim essa inquietação antiga: a vontade de sair. Não apenas sair de um lugar, mas sair de uma forma. Sair de um molde. Sair de uma versão de vida que parecia funcional por fora, mas que por dentro começava a me pedir um tipo de fidelidade que eu já não conseguia sustentar.
Por muito tempo, esse desejo viveu em mim como vivem certos sonhos: não exatamente mortos, mas distantes. Presentes o suficiente para incomodar, ausentes o suficiente para serem adiados.
A gente costuma falar de sonho como se fosse uma coisa luminosa. Como se bastasse desejar com força para que ele permanecesse intacto dentro de nós. Mas nem todo sonho sobrevive bem à espera. Alguns sonhos, quando adiados demais, começam a perder o ar. Primeiro deixam de entusiasmar. Depois viram incômodo. Depois viram cobrança silenciosa. E, se a gente demora muito para escutar, eles começam a apodrecer dentro da vida.
O sonho não morre de uma vez.
Ele vai ficando sem lugar.
E talvez uma das dores mais difíceis de admitir seja perceber que não foi o mundo que matou aquele sonho. Fomos nós, aos poucos, cada vez que negociamos com aquilo que era essencial.
Antes da minha primeira grande ruptura, eu vivia uma vida muito presencial. Trabalhava com marketing jurídico. Circulava em ambiente de advogados, escritórios, eventos, reuniões, gravatas, cartões de visita, reputação, imagem. Havia uma pompa própria daquele mundo. Uma necessidade constante de parecer sólido, confiável, bem articulado, bem-sucedido. Não bastava fazer. Era preciso sustentar uma presença.
O direito, talvez mais do que muitos outros campos, entende o valor da imagem. A sala, a roupa, a palavra, o gesto, a postura, o sobrenome, a referência, a autoridade. Tudo comunica. E eu, de alguma forma, entrei nesse jogo. Aprendi a falar, a vender, a me posicionar, a circular. Desenvolvi ferramentas que depois me serviriam muito, mas paguei também o preço de vestir um personagem por tempo demais.
Por fora, havia construção.
Por dentro, havia exaustão.
Quando decidi sair do Brasil, a viagem não nasceu como um plano elegante. Não foi uma transição organizada, com planilha, reserva financeira robusta e narrativa bonita para LinkedIn. Foi ruptura. Foi quase um rompimento com uma pele antiga.
Costumo dizer que, em uma semana, eu estava dando uma palestra para quarenta advogados.
Na semana seguinte, estava lavando banheiro em um hostel na Argentina.
Essa imagem me acompanha porque ela resume melhor do que qualquer explicação o tamanho da quebra. Não era apenas mudança de país. Era mudança de eixo. Eu saí de um lugar onde minha identidade estava amarrada à performance, à fala, à imagem, à autoridade, e fui parar em um lugar onde nada disso importava.
Ninguém queria saber quem eu tinha sido.
Ninguém queria saber se eu já tinha dado palestra, se eu tinha clientes, se eu entendia de marketing jurídico, se eu sabia conversar com advogado, se eu já tinha sido reconhecido em algum círculo específico.
Havia um banheiro para lavar.
E isso, de um jeito estranho, foi libertador.
Porque há uma humildade que só a vida concreta ensina. Não a humildade performática, bonita, dita em frase de efeito. Mas aquela que vem quando o mundo retira de você as insígnias pelas quais você se reconhecia. Quando a identidade social cai, quando a imagem perde função, quando o ego fica sem plateia e sobra apenas a tarefa simples, direta, material.
Limpar um banheiro em um hostel depois de ter falado para quarenta advogados pode parecer queda.
E talvez tenha sido.
Mas algumas quedas são apenas o início de uma forma mais verdadeira de caminhar.
Naquela primeira fase, viajar era possível porque eu aceitava quase tudo que sustentasse o movimento. Trocar trabalho por hospedagem. Fazer tarefas menores. Cuidar de recepção. Limpar. Organizar. Ajudar. Aprender a existir em lugares onde eu não tinha história prévia. Entrar em comunidades temporárias. Conhecer gente que ficava alguns dias e partia. Ser também alguém de passagem.
Havia liberdade nisso, mas não havia glamour.
A liberdade, quando vivida de perto, tem muito menos estética do que se imagina. Ela tem mala pesada, dinheiro contado, trabalho físico, incerteza, adaptação, solidão, cansaço, cama compartilhada, combinado mudando, planos improvisados. Ela tem beleza, sim. Mas a beleza vem misturada com atrito.
E talvez por isso seja real.
Depois vieram outros lugares. Argentina. Chile. Patagônia. Hostels, casas, cabanas, pequenos trabalhos, experiências que pareciam soltas, mas que, olhando depois, formavam uma linha. Eu estava aprendendo hospitalidade sem saber que estava aprendendo. Estava aprendendo turismo, recepção, convivência, improviso, venda, cuidado, território. Estava me formando por dentro de uma maneira que nenhuma faculdade teria organizado daquele jeito.
Em algum momento, em Punta Arenas, eu assentei. Encontrei um trabalho mais estável, um trabalho de verdade, dentro de um hotel. A vida me pediu permanência. E há uma parte importante da travessia que também é essa: entender que nem todo movimento é deslocamento. Às vezes, para continuar, é preciso ficar.
Mas o desejo de movimento nunca foi embora.
Ele apenas mudou de forma.
Quando voltei ao Brasil e fui para a Chapada Diamantina, parecia que uma parte do sonho tinha encontrado outra configuração. Eu estava fora de São Paulo. Estava em Seabra, cidade do meu pai, numa região carregada de memória, ancestralidade e paisagem. A Chapada tem uma força própria. As serras, as trilhas, o ar seco, as histórias de família, as ruas que guardavam vínculos anteriores a mim. Havia ali algo de raiz.
E, ao mesmo tempo, eu trabalhava online. Nunca ganhei um centavo trabalhando propriamente em Seabra. Minha renda vinha de fora. Clientes de outras regiões, empresas de outros lugares, demandas que chegavam pela tela. De certo modo, eu já vivia algo que muita gente chamaria de remoto. Eu estava em uma cidade do interior da Bahia, trabalhando para fora, sem depender economicamente daquele território imediato.
Mas há uma diferença enorme entre trabalhar remoto e ser livre.
Eu estava fora de São Paulo, mas ainda não estava em movimento. Estava em um lugar bonito, mas não necessariamente vivendo o sonho. Tinha raiz, mas também tinha espera. Havia vínculos, negociações internas, afetos, expectativas, planos condicionados ao tempo de outra pessoa. Eu queria partir, mas esperava. Queria retomar a travessia, mas aguardava que a vida se organizasse de um jeito que talvez nunca fosse se organizar.
E, enquanto eu esperava, algo em mim começou a morrer por dentro.
É duro escrever isso com clareza, mas talvez seja necessário.
Porque existe uma forma silenciosa de autoabandono que não parece autoabandono no começo. Parece prudência. Parece paciência. Parece amor. Parece responsabilidade. Parece “esperar o momento certo”. Parece “não dá agora”. Parece “em breve”. Parece “quando as coisas melhorarem”. Parece “quando o outro puder”. Parece “quando houver mais dinheiro”. Parece “quando a vida autorizar”.
Mas o tempo passa.
E o que era cuidado começa a virar paralisia. O que era espera começa a virar renúncia. O que era negociação começa a virar esquecimento de si.
A gente não percebe no primeiro dia. Não percebe no primeiro mês. Às vezes não percebe nem no primeiro ano. Mas o sonho vai ficando estranho dentro da gente. Ele perde o brilho. Depois perde a voz. Depois começa a pesar. Até que um dia a gente sente o cheiro.
O sonho apodrece quando fica tempo demais sem ser vivido.
E o pior é que, quando finalmente percebemos, talvez ele já esteja apodrecendo há muito tempo.
Eu lembro da dor de me dar conta disso. Não foi bonito. Não veio como epifania luminosa. Não teve música de fundo. Foi uma percepção incômoda, quase física: eu estava me abandonando. Não porque não tinha capacidade. Não porque não tinha desejo. Não porque não tinha condições mínimas de tentar. Mas porque, de alguma forma, eu tinha deixado minha vontade sentada do lado de fora, esperando autorização para entrar na própria vida.
Aquilo me feriu.
E talvez tenha me salvado.
Porque há dores que não vêm para destruir. Vêm para interromper uma morte lenta.
Foi quando entendi que talvez precisasse abandonar de novo.
Não como antes. Não com a irresponsabilidade bonita da primeira ruptura. Não como quem larga tudo sem saber o que virá. Eu já não era o mesmo da Argentina. Havia mais experiência, mais consequência, mais consciência, mais contas, mais método, mais corpo. Mas, ainda assim, havia uma verdade simples: se eu não me movesse, alguma coisa essencial em mim continuaria morrendo.
Então eu comecei a fazer do jeito possível.
Não o jeito perfeito. O possível.
Porque a vida raramente nos oferece a cena ideal para viver aquilo que importa. A gente gostaria de começar com tudo organizado, dinheiro sobrando, corpo descansado, coração resolvido, agenda limpa, relações pacificadas, futuro minimamente previsível. Mas o sonho, quando é verdadeiro, nem sempre espera esse cenário. Às vezes ele apenas fica ali, olhando para nós, perguntando quanto tempo ainda vamos fingir que não ouvimos.
Eu ouvi.
E fui.
Primeiro, Jacobina. Uma semana.
Depois, Petrolina. Mais uma semana.
Depois, Aracaju. Quatro meses.
Depois, Maceió. Seis meses.
Depois, João Pessoa. Um mês.
Depois, Natal. Dois meses.
Escrever assim, em sequência, dá uma impressão simples, quase logística. Como se fosse apenas um roteiro. Mas cada cidade foi mais do que um ponto no mapa. Cada uma teve seu peso, sua prova, seu ritmo, sua solidão, sua beleza, sua forma de me devolver a mim mesmo.
Eu não estava apenas viajando.
Eu estava testando uma vida.
Estava tentando descobrir se aquele sonho antigo — o de trabalhar em movimento, viver em diferentes lugares, conhecer o Brasil com o corpo e não apenas com a imaginação — podia deixar de ser uma imagem distante e virar rotina concreta.
E rotina concreta é outra coisa.
Trabalhar de qualquer lugar parece bonito quando dito em uma frase curta. A internet gosta dessa imagem: o notebook aberto, o café ao lado, uma praia ao fundo, a pessoa livre, produtiva, inspirada. Mas a vida real é menos publicitária. Trabalhar em movimento exige criar chão onde não há chão. Exige encontrar internet, silêncio, mesa, rotina, mercado, lavanderia, lugar para dormir, lugar para caminhar, lugar para adoecer, lugar para descansar. Exige lidar com problema de cliente enquanto a cidade lá fora te convida. Exige responder mensagem quando o corpo quer praia. Exige trabalhar mesmo quando ninguém ao redor sabe quem você é.
E talvez seja justamente aí que a liberdade começa a ficar séria.
Porque liberdade não é fazer o que se quer o tempo todo.
Liberdade é assumir as consequências da própria escolha.
Em Seabra, eu tinha família, amigos, história, conhecidos, referências. Mesmo quando me sentia só, havia um campo de pertencimento ao redor. Havia gente que sabia quem eu era. Havia uma narrativa anterior me sustentando.
No Nordeste em movimento, muitas vezes eu tinha apenas a mim mesmo.
E isso foi libertador de uma forma que nem sempre é confortável.
Porque existe um tipo de autoconhecimento que só aparece quando ninguém está olhando. Quando não há família por perto para confirmar sua identidade. Quando não há amigos antigos devolvendo uma imagem conhecida. Quando não há rotina herdada dizendo onde você deve estar. Quando a cidade não sabe seu nome. Quando seus problemas são seus. Quando suas soluções também.
Ali, em cidades onde eu não tinha histórico, eu me vi de outro jeito.
Eu me vi resolvendo a própria vida.
Me vi procurando moradia temporária, criando rotina, trabalhando, conhecendo pessoas, lidando com solidão, abrindo espaço para encontros, errando, acertando, me ajustando. Me vi sem o olhar antigo dos outros. E isso é uma experiência poderosa: conhecer-se sem ser observado.
A gente muda quando deixa de ser vigiado pela própria biografia.
Muda quando ninguém espera que você seja uma versão específica de si mesmo. Muda quando a cidade não carrega suas histórias. Muda quando você pode caminhar por uma rua sem que ela devolva um passado. Muda quando a vida abre uma página em branco e pergunta: quem você é quando ninguém está te narrando?
Em 2024, muitas vezes eu fui essa pergunta.
E fui respondendo aos poucos.
Com trabalho.
Com estrada.
Com praia.
Com solidão.
Com encontros.
Com erros.
Com comida nova.
Com conversas inesperadas.
Com boletos pagos de longe.
Com o notebook aberto em lugares provisórios.
Com a sensação estranha e maravilhosa de que minha vida estava finalmente acontecendo em movimento.
Houve encontros lindos.
Pessoas que apareceram como aparecem certas luzes no fim da tarde: não para ficar necessariamente para sempre, mas para transformar a cor de um período. Algumas companhias tornam os dias mais leves sem prometer nada além da presença. Uma conversa, uma caminhada, uma mesa, uma praia, uma noite, uma risada, um silêncio compartilhado. Às vezes isso basta para marcar uma fase inteira.
A estrada ensina também sobre vínculos.
Nem todo encontro precisa virar permanência para ser verdadeiro. Nem toda despedida é fracasso. Algumas pessoas pertencem a uma cidade, a um trecho, a uma estação da alma. Entram, iluminam, ensinam algo e seguem. E a gente segue também, levando uma parte do que foi vivido.
Houve paisagens que eu tinha sonhado conhecer.
E há uma diferença enorme entre desejar uma paisagem e ter sido atravessado por ela.
Enquanto um lugar é apenas imagem, ele ainda está fora de nós. Pode estar salvo em uma pasta, em uma lista, em uma conversa, em uma vontade antiga. Mas quando a gente pisa, sente o calor, come a comida, ouve o sotaque, pega o ônibus, anda pela rua, vê o céu daquele lugar escurecendo, aquilo muda de natureza. Deixa de ser destino e vira memória.
O lugar entra.
Passa a fazer parte da nossa geografia interna.
Em 2024, o Nordeste entrou em mim de um jeito que ainda estou entendendo.
Não entrou como paisagem turística. Entrou como território. Como corpo. Como povo. Como comida. Como hospitalidade. Como vastidão. Como contraste. Como litoral e sertão, capital e interior, festa e silêncio, alegria e dureza, vento e calor, praia e pedra, rio e mar.
E isso tinha uma camada ancestral.
Meu pai era baiano. Eu vivi na Bahia, na Chapada Diamantina, em Seabra, na cidade dele. A Bahia já era, de algum modo, raiz. Mas o Nordeste não se resume à Bahia, nem ao interior, nem à cidade do meu pai, nem à memória familiar. O Nordeste é uma vastidão de mundos. É um território que não cabe em uma imagem só.
Cruzar uma parte dessa vastidão foi como expandir uma raiz.
Eu não estava apenas conhecendo lugares bonitos. Estava me reconhecendo em um território que, de alguma forma, também me antecedia. Havia algo ali que não era apenas descoberta, mas reencontro. Como se cada cidade me dissesse: você não veio daqui exatamente, mas também não é estrangeiro completo.
A hospitalidade me marcou.
A gastronomia me marcou.
O modo como a vida ocupa a rua me marcou. O modo como as pessoas conversam, recebem, improvisam, celebram. O jeito como o cotidiano parece menos separado do corpo. O calor que desacelera certas pressas. A praia que reorganiza o fim do dia. O mercado, a comida, o sotaque, a música, os pequenos hábitos que fazem uma cidade deixar de ser cenário e virar experiência.
Em algum momento, entre uma tarefa e outra, eu percebi: isso deixou de ser sonho.
Não porque tinha ficado perfeito.
Mas porque tinha ficado real.
O sonho deixou de ser distante quando parou de ser uma imagem idealizada e passou a ter logística. Passou a ter aluguel temporário, internet instável, reunião no meio da viagem, mercado de bairro, roupa para lavar, cansaço, saudade, adaptação, planilha, entrega, deslocamento, solidão, desejo, presença.
O sonho virou notebook aberto em cidade desconhecida.
Virou trabalho entregue de longe.
Virou café tomado antes de uma reunião.
Virou praia no fim do expediente.
Virou problema resolvido sem ter ninguém por perto.
Virou caminhada por uma orla que, semanas antes, eu não sabia que seria minha.
Virou conversa com desconhecido.
Virou despedida.
Virou liberdade com boleto.
Virou vida.
E talvez essa seja a única forma verdadeira de um sonho acontecer: quando ele desce da imagem e entra na matéria.
A fantasia não tem conta para pagar. O sonho vivido tem.
A fantasia não precisa lidar com cansaço. O sonho vivido precisa.
A fantasia não precisa negociar com o real. O sonho vivido é o real, com toda a sua beleza e todo o seu atrito.
E foi justamente por isso que 2024 foi tão importante para mim. Porque ele não me entregou uma versão perfeita da liberdade. Ele me entregou uma versão possível. E, por ser possível, era muito mais preciosa.
Enquanto uma parte de mim ascendia, outras coisas ruíam.
Isso também precisa ser dito.
Seria falso transformar aquele ano em cartão-postal. Havia instabilidades. Havia estruturas profissionais se desgastando por baixo. Havia dúvidas sobre o futuro. Havia a vida preparando rupturas que eu ainda não conseguia medir por inteiro. Enquanto eu vivia uma das fases mais bonitas da minha trajetória, outras bases começavam a tremer.
Mas talvez seja assim mesmo que os sonhos verdadeiros se realizem: não quando tudo está resolvido, mas quando aprendemos a sustentá-los no meio da instabilidade.
Existe uma ideia infantil de realização que imagina o sonho como chegada triunfal. Um dia tudo se organiza, o dinheiro sobra, o amor se alinha, o trabalho flui, o corpo está bem, a mente está clara, e então finalmente podemos viver.
Mas a vida não costuma funcionar assim.
Às vezes a gente vive com medo mesmo.
Viaja com pendências.
Trabalha com dúvidas.
Ama com cicatrizes.
Sorri enquanto outra parte sangra.
Vê o mar enquanto uma estrutura interna range.
E isso não invalida a beleza.
Pelo contrário. Talvez a torne mais verdadeira.
Porque viver não é esperar a ausência de conflito. É encontrar presença no meio dele.
Em 2024, eu senti isso muitas vezes. Eu não estava livre de todas as tensões. Mas estava vivo de um jeito que eu precisava estar. Havia em mim uma parte que voltava a respirar. Uma parte antiga, que durante anos tinha desejado movimento, finalmente podia dizer: eu estou aqui. Eu vim. Eu não abandonei você para sempre.
E essa reconciliação comigo mesmo talvez tenha sido a maior viagem.
Mais do que Jacobina, Petrolina, Aracaju, Maceió, João Pessoa ou Natal, o verdadeiro deslocamento foi voltar a habitar uma vontade que eu tinha quase deixado morrer.
Parei de esperar autorização.
Essa frase parece simples, mas carrega uma vida inteira.
Parei de esperar que alguém quisesse junto. Parei de esperar que o cenário ficasse perfeito. Parei de esperar que o tempo do outro coincidisse com o meu. Parei de esperar que o sonho se mantivesse intacto enquanto eu o adiava. Parei de entregar minha vontade para uma assembleia invisível de condições ideais.
Em algum momento, entendi que algumas vontades essenciais precisam ser honradas antes que apodreçam.
E honrar não significa realizar de forma grandiosa.
Às vezes honrar é dar o primeiro passo possível.
Uma semana em Jacobina.
Mais uma em Petrolina.
Quatro meses em Aracaju.
Seis meses em Maceió.
Um mês em João Pessoa.
Dois meses em Natal.
Passo a passo, cidade a cidade, aluguel a aluguel, entrega a entrega, eu fui reconstruindo a confiança de que minha vida podia ser movida pela minha própria vontade.
Não uma vontade egoica, caprichosa, infantil. Mas uma vontade profunda. Aquela que não pede luxo, pede verdade. Aquela que não quer fugir da responsabilidade, mas encontrar uma forma mais coerente de carregá-la.
Porque liberdade, para mim, nunca foi ausência de trabalho.
Liberdade foi poder escolher a moldura da minha vida.
Foi poder trabalhar sem estar preso ao lugar onde o trabalho nasceu. Foi poder transformar a tecnologia em passagem, não em cela. Foi poder levar meu ofício comigo e descobrir que o mundo podia se expandir a partir de onde eu estivesse.
Foi entender que o trabalho não precisava ser inimigo da estrada.
Podia ser o que sustentava a travessia.
Isso muda muita coisa.
Durante anos, talvez eu tenha imaginado liberdade e trabalho como forças opostas. De um lado, o dever. Do outro, a vida. De um lado, a responsabilidade. Do outro, o movimento. Mas 2024 me mostrou outra possibilidade: e se o método certo, o sistema certo, a forma certa de organizar a vida permitisse que trabalho e movimento deixassem de ser inimigos?
Não de modo ingênuo. Não sem custo. Não sem disciplina.
Mas de modo real.
Eu trabalhei muito naquele ano. Resolvi problemas, entreguei demandas, sustentei clientes, organizei rotinas possíveis. Não era férias. Não era fuga. Era vida sendo construída em outro formato.
E isso me deu uma dignidade diferente.
Porque não era apenas viajar.
Era me sustentar enquanto viajava.
Era provar para mim mesmo que eu podia ser adulto sem abandonar o movimento. Que podia ser responsável sem voltar para a gaiola. Que podia ganhar dinheiro, entregar valor, resolver problemas e, ainda assim, deixar que a paisagem me transformasse.
Talvez por isso o título deste texto me pareça tão verdadeiro.
O sonho deixou de ser distante.
Não porque eu cheguei a um lugar definitivo.
Mas porque ele saiu do campo da promessa.
Deixou de ser “um dia”.
Deixou de ser “quando der”.
Deixou de ser “quando tudo estiver certo”.
Deixou de ser “quando alguém vier comigo”.
Deixou de ser “quando a vida permitir”.
Virou caminho.
E quando um sonho vira caminho, ele muda. Perde a pureza da imaginação, mas ganha a densidade da experiência. Deixa de ser perfeito, mas começa a ser nosso. Deixa de brilhar de longe, mas passa a iluminar por dentro.
Talvez seja isso que eu tenha vivido em 2024.
Não a realização de uma fantasia.
Mas a encarnação de uma vontade.
Uma vontade antiga, ferida, adiada, quase apodrecida, que encontrou uma fresta e voltou a crescer.
Ah, 2024.
Ano que vivi como quem caminha desvendando segredos escondidos nos ventos do Nordeste. Viajei por terras que pareciam pulsar sob meus pés, praias onde o mar sussurrava eternidades, cidades onde o cotidiano me ensinava outro ritmo, serras e rios que guardavam silêncios mais antigos do que as minhas perguntas.
O sol, como testemunha, iluminou cada passo, enquanto a estrada me abraçava e revelava histórias que ainda ecoam em mim.
Em cada desvio, em cada curva, em cada chegada provisória, mais do que paisagens, encontrei pedaços de mim mesmo. Como se o mundo tivesse sido criado, em alguns momentos, apenas para me lembrar quem eu era antes de esquecer.
Viajar foi mais do que movimento.
Foi reencontro.
Foi celebração daquilo que ainda pulsava em mim, vivo e inacabado.
Foi nesse ano que o sonho deixou de ser distante para se fazer caminho. Consolidei, ainda que no meio de instabilidades, um trabalho que não me aprisionava, mas me dava asas. Um trabalho que permitia que o mundo se expandisse a partir de onde eu estivesse. Em cada tarefa, em cada entrega, em cada conquista pequena, senti o pulsar de algo maior: a certeza de que eu estava mais perto de uma versão de vida que um dia pareceu impossível.
E, como dádiva, o destino colocou no meu caminho companhias raras.
Almas que iluminaram dias com presença. Pessoas que talvez não saibam o quanto marcaram. Encontros que não precisavam durar para serem verdadeiros. Cidades que me receberam sem pedir explicação. Paisagens que me deram silêncio. Sabores que me deram pertencimento. Caminhos que me devolveram coragem.
2024 não foi apenas um ano.
Foi um fragmento de eternidade onde o tempo e o coração dançaram juntos.
Um ano imperfeito, instável, luminoso, contraditório, vivo.
Um ano em que partes da minha vida subiam enquanto outras começavam a ruir.
Um ano em que aprendi que a gratidão não nasce apenas quando tudo dá certo. Às vezes ela nasce quando, mesmo em meio ao que ameaça desmoronar, conseguimos reconhecer: ainda estou aqui. Ainda me movo. Ainda quero. Ainda posso.
E talvez viver seja, em grande parte, isso.
Não deixar que o sonho apodreça em silêncio.
Não esperar tanto a ponto de perder o cheiro da própria vontade.
Não confundir prudência com abandono de si.
Não exigir que a vida esteja perfeita para começar a ser verdadeira.
Quando o sonho deixou de ser distante, ele não veio como prêmio.
Veio como estrada.
E estrada não promete conforto. Promete passagem.
Promete encontro, cansaço, beleza, poeira, risco, abertura, saudade, presença.
Promete que, se aceitarmos caminhar, talvez não encontremos exatamente aquilo que imaginávamos.
Mas encontraremos algo mais importante:
uma versão de nós mesmos que só poderia nascer em movimento.
Em 2024, eu encontrei essa versão.
E agradeço.
Não com a gratidão rasa de quem diz que tudo foi lindo.
Mas com a gratidão profunda de quem sabe que quase abandonou uma parte essencial de si — e, por algum gesto de coragem, conseguiu buscá-la de volta.