— ensaio —

O que resiste quando crescer não é uma opção?

17 min de leitura

A Estrada


Saí de Seabra com três caminhos possíveis até Remanso. Um deles me levaria por Ibotirama. Outro desceria em direção a Jacobina, seguiria por Juazeiro e Petrolina e, de lá, subiria novamente acompanhando o São Francisco.

O terceiro atravessava o Boqueirão da Onça.

Escolhi o terceiro por um motivo muito menos filosófico do que tudo o que essa escolha acabaria provocando depois.

Eu não queria caminhões.

Não queria passar horas atrás de carretas, esperando uma reta longa o suficiente, calculando distância, reduzindo marcha, acelerando, desistindo da ultrapassagem e tentando de novo alguns quilômetros depois. Olhei o mapa. Aquela estrada parecia menor, mais vazia, menos óbvia. Pensei que provavelmente teria pouco movimento.

Nesse ponto, eu estava certo.

Depois de Irecê, a estrada foi se estreitando. Em algum momento, o asfalto terminou e a estrada de chão começou. Olhei o mapa novamente. Ainda faltavam quase seis horas.

Seis horas de estrada atravessando a Caatinga.

No início, achei curioso. Depois percebi que praticamente ninguém passava por ali. Não havia carro vindo no sentido contrário. Não havia moto. Não havia caminhão na minha frente, o que justificava a escolha que eu tinha feito. Não havia nada que pudesse ser chamado de trânsito.

A estrada simplesmente avançava.

À direita, Caatinga.
À esquerda, Caatinga.
À frente, uma faixa de terra cortando uma paisagem que parecia não ter intenção alguma de terminar.

Segui.


Existe um tipo de silêncio que só aparece quando o ruído humano deixa de ser referência. O motor do carro continuava ligado. Os pneus batiam nas irregularidades da estrada. Algumas coisas dentro do veículo tremiam com os buracos. A poeira se levantava atrás de mim e ficava suspensa por alguns segundos antes de voltar lentamente para o chão.

Mesmo assim, havia silêncio.

Não porque não existisse som. Mas porque quase nenhum daqueles sons dependia de alguém.

De tempos em tempos aparecia uma casa. Depois duas. Algumas vezes um pequeno conjunto delas. Comunidades tão pequenas que pareciam ter sido colocadas ali sem a intenção de formar uma cidade. Uma cerca baixa. Uma cisterna. Alguma construção simples. Uma motocicleta encostada. Cabras na beira da estrada.

Em alguns trechos, encontrava sertanejos tocando seus animais.

Cabras.
Bodes.
Às vezes gado.

Eu passava devagar, esperando que os animais escolhessem um lado da estrada. O sertanejo fazia algum gesto. Eu respondia. E continuava.

O que para mim tinha alguma coisa de extraordinário era, para quem estava ali, apenas uma parte do dia.

O sol parecia vertical. A terra, horizontal, aparecia quase sem cobertura. Havia lugares onde meus olhos procuravam alguma coisa verde e encontravam apenas galhos, pedras, espinhos e poeira.

Durante algum tempo, enxerguei a Caatinga dessa forma. Pelo que parecia faltar.

Água.
Sombra.
Folha.
Movimento.

Depois comecei a perceber que o problema estava no verbo.

Eu procurava.

Procurava aquilo que estava acostumado a reconhecer como sinal de vida. E, quando não encontrava, chamava o que restava de ausência.


Em algum ponto da estrada, parei o carro. Não havia nada indicando que eu deveria parar ali. Nenhuma placa. Nenhum mirante. Nenhum ponto turístico. Nenhum daqueles lugares onde alguém decidiu previamente que existe uma paisagem digna de ser observada.

Parei porque vi duas formas lado a lado no meio de um descampado.

Um cacto e uma árvore retorcida. Ao redor deles, terra. Quase nenhuma cobertura baixa. Nenhuma sombra generosa atravessando o chão. Nada que, visto rapidamente, disputasse a atenção.

Os dois estavam ali.

De pé.

Talvez eu já tivesse passado por centenas deles. Mas naquela vez, parei. Desci. O calor fora do carro tinha outra densidade.

Fiquei olhando.

Era um mandacaru e um juazeiro.

O mandacaru seco por fora, guardando água por dentro. O juazeiro mais aberto, fazendo sombra onde quase nada a oferece.

Sobreviver ali não era uma ideia abstrata.

Era forma.
Estrutura.
Jeito.

Nada parecia gastar energia à toa. O mandacaru não tentava ser árvore. O juazeiro não precisava provar força pela altura. Cada um respondia ao lugar com uma estratégia própria.

Fiquei alguns minutos diante dos dois. Ali havia uma coisa que eu ainda não sabia formular, mas que me acompanharia durante as semanas seguintes.

A Caatinga não parecia organizada para o desperdício.

Isso aparecia primeiro na forma. Na quantidade de folhas. Na maneira como algumas plantas se fechavam. Naquilo que protegiam. Naquilo que guardavam. Na escolha entre crescer para fora e preservar alguma coisa por dentro.

Quando a água se torna irregular, a forma também precisa aprender a ser outra. Na Caatinga, a chuva não organiza o calendário com a delicadeza das quatro estações que aprendemos nos livros.

Há, sobretudo, dois grandes estados.

Chove,
ou não chove.

E a segunda condição costuma durar muito mais. A seca não chega como uma interrupção excepcional da normalidade. Ela participa da normalidade.

E isso muda tudo.

Uma vida estruturada para funcionar apenas durante a abundância teria pouca chance ali. A sobrevivência exige outra relação com o tempo.

Guardar.
Reduzir.
Esperar.
Aprofundar.

Responder rápido quando a oportunidade aparece. Depois guardar de novo.

Visto de fora, esse ritmo pode parecer pobreza. Visto de perto, começa a parecer inteligência.


Existe uma diferença importante entre resistência e rigidez. Passei boa parte da vida confundindo as duas. A coisa rígida parece forte porque mantém a forma.

Resiste à pressão. Não cede. Até o momento em que a pressão supera sua capacidade.

Então quebra.

A vida trabalha de outra maneira.

Ela muda antes.
Recua.
Economiza.
Desloca energia.

Fecha uma parte para preservar outra. Aceita perder folha para não perder raiz. Espera quando avançar custaria demais. Cresce quando as condições permitem.

Aquilo que permanece vivo durante muito tempo dificilmente permanece igual.

Talvez tenha sido essa uma das primeiras coisas que comecei a compreender parado diante de um mandacaru e de um juazeiro no meio do Boqueirão da Onça.

Resistir não exige conservar todas as formas. Exige conservar aquilo que permite à vida continuar.


Voltei para o carro. Liguei o motor. Segui.

A Caatinga continuava dos dois lados. Ainda havia terra. Ainda havia sol. Ainda havia longos trechos sem ninguém.

Mas o olhar já não era exatamente o mesmo.

Passei a perceber pequenos movimentos. Uma ave atravessando a estrada. Uma cabra buscando sombra. Uma casa com algumas árvores ao redor. Um sertanejo tocando animais. Um pedaço de verde que, algumas horas antes, eu provavelmente teria ignorado.

O lugar continuava econômico. Mas eu começava a perceber a quantidade de vida que cabia dentro dessa economia.

Segui por horas.

Até que o sertão virou mar.


A transição foi quase brutal. Depois de tanto chão seco, o São Francisco apareceu.

Não como uma linha estreita.

Água.
Muita água.

A estrada chegou até ele e obrigou o caminho a mudar de direção. Virei à direita. O rio ficou à esquerda. E passou a me acompanhar.

Durante horas eu havia atravessado uma paisagem em que cada sinal de umidade parecia precioso. Agora havia uma massa inteira de água ao lado da estrada. O mesmo sol que antes fazia a terra parecer ainda mais seca batia sobre a superfície e devolvia luz.

O ar parecia diferente. Havia uma brisa. Pequena. Suficiente para o corpo perceber.

A Caatinga não tinha terminado. O São Francisco existia dentro dela como uma espécie de contradição geográfica. Secura e água ocupando o mesmo quadro.

Foi assim que cheguei a Remanso.


Demorei um pouco para entender que a cidade onde eu chegava não era exatamente a cidade que carregava aquele nome havia tanto tempo. A antiga Remanso ficou para trás. Ou, mais precisamente, ficou debaixo d’água. Com a formação da represa de Sobradinho, a cidade precisou ser deslocada.

Casas.
Ruas.
Igreja.
Comércio.
Memória.

As pessoas deixaram um lugar que continuaria existindo por algum tempo na lembrança, enquanto sua matéria desaparecia sob a água.

Isso produz um paradoxo difícil de ignorar.

Eu tinha acabado de atravessar um território inteiro moldado pela falta. Pouca água determina a forma das plantas. Pouca água determina o ritmo dos animais. Pouca água atravessa a agricultura, as distâncias, a sombra, os hábitos.

E alguns quilômetros depois chego a uma cidade cuja existência atual nasce de uma história provocada pelo excesso.

A Caatinga sofre quando a água não vem. Remanso precisou renascer porque veio água demais.

Durante algum tempo fiquei preso nessa imagem. A falta mata. O excesso também pode destruir.

E entre os dois, existe uma ideia que eu costumava associar a coisas muito mais abstratas.

Medida.


Talvez por isso tenha começado a observar os fluxos da cidade. Remanso tem outro ritmo. Seria fácil chamar esse ritmo de lento. Mas lentidão, para quem vem de uma cidade grande, quase sempre soa como ausência.

Falta velocidade.
Falta oportunidade.
Falta mercado.
Falta circulação.
Falta dinheiro.
Falta ambição.

Durante alguns dias essa leitura parece convincente. Depois começa a falhar.

Pois o dinheiro circula. As pessoas compram. Vendem. Comem fora. Consertam coisas. Abrem negócios. Fecham negócios. Constroem casas. Criam filhos. Abastecem carros. Tomam cachaça. Fazem aniversário. Trabalham.

A cidade funciona.

Só que o fluxo tem outra pressão. E eu percebi isso primeiro nos lugares mais simples. Um restaurante não precisa se transformar em experiência gastronômica para justificar sua existência. Ele precisa servir almoço.

Arroz.
Feijão tropeiro.
Carne de carneiro.
Cuscuz.
Salada.

Alguma coisa feita na panela desde cedo.

Buchada.
Sarapatel.
Miúdos.
Mocotó.

A pessoa entra com fome. Sai alimentada. A operação cabe dentro da função.

Talvez nunca se transforme em uma grande marca. Talvez o proprietário nem queira isso. Para quem chega de um lugar onde tudo precisa ganhar conceito, escala e expansão, essa simplicidade pode parecer pouco. Mas talvez seja apenas outro metabolismo.

Há cidades que crescem como florestas tropicais, disputando luz, erguendo torres, multiplicando ofertas, criando novas necessidades para sustentar o próprio movimento. Outras crescem como árvores da Caatinga. Devagar. Sem desperdiçar energia. Preservando o essencial antes de investir no excesso.

Por conta da minha própria trajetória, durante muito tempo aprendi a olhar negócios pela capacidade de expansão. Crescimento. Escala. Margem. Processo. Multiplicação.

Em Remanso comecei a pensar em outra pergunta.

Quanto uma coisa precisa gerar para continuar cumprindo bem aquilo para o qual existe?

Parece uma pergunta econômica. Contudo, não permaneceu assim por muito tempo. Começou a se espalhar para outras partes da vida.


Há sistemas organizados para crescer. Há sistemas organizados para durar. Os dois movimentos podem conviver. Mas pedem coisas diferentes.

Crescimento consome recursos. Mais espaço. Mais energia. Mais atenção. Mais circulação. Mais gente. Mais capital.

Permanência faz outras perguntas. Quanto custa continuar? O que precisa ser protegido? O que pode diminuir sem comprometer a estrutura? Onde está o desperdício? Quanto tempo a reserva precisa durar?

A Caatinga já fazia essas perguntas muito antes de eu chegar. E Remanso parecia respondê-las de outro jeito. Na vegetação, a resposta aparecia na forma. Na cidade, aparecia no fluxo.

Comecei a imaginar um metabolismo compartilhado entre o lugar e quem aprende a viver nele. Não como destino. Como adaptação.

Quando os recursos circulam de outra maneira, a vida aprende outra cadência.


Durante semanas, fui me acostumando. A cidade pequena deixa de ser pequena depois que você aprende onde as coisas estão. A rua que parecia desconhecida ganha referência. O mercado passa a ter nome. O restaurante deixa de ser apenas um restaurante.

Você reconhece quem atende. Sabe onde abastecer. Sabe onde estacionar. Sabe a hora em que determinada coisa abre. Começa a reconhecer rostos.

A cidade adquire proporção humana. E, quando isso acontece, a primeira camada do lugar desaparece.

A gente deixa de ser visitante. Começa a ser habitante.

Habitar muda a qualidade da observação. O visitante procura diferença. Quem permanece começa a perceber repetição.

E há muito conhecimento escondido na repetição.


Enquanto escrevo este texto, levanto os olhos da tela. Há um galo-de-campina sob a sombra de uma árvore. A cabeça vermelha aparece primeiro. Depois o corpo. Ele caminha pelo chão em movimentos pequenos.

Para.
Olha.
Cisca.
Dá alguns passos.
Para novamente.
Cisca outra vez.

Imagino que esteja procurando alguma semente. Durante alguns segundos fico apenas observando. Há qualquer coisa de metódico naquele movimento. Ele não percorre o chão como se houvesse alimento infinito. Também não permanece parado esperando que alguma coisa aconteça.

Ele procura.
Move pouca terra.
Avança.
Depois procura novamente.

O gesto parece mínimo porque a escala dele é mínima. Uma semente basta para justificar uma bicada. Outra semente justifica mais alguns passos. Nada naquela cena pede grandiosidade. O pássaro precisa encontrar o suficiente para continuar.

E então, dois quero-queros aparecem.

A cena inteira muda.

Eles vêm rápidos. Gritam. Mergulham sobre o galo-de-campina. Um passa. O outro vem logo depois.

O pássaro que, segundos antes, parecia completamente entregue à busca por sementes ergue o corpo, salta, muda de direção. Os quero-queros atacam novamente.

O silêncio desaparece. A aparente tranquilidade também.

A natureza, sem nenhuma preocupação em colaborar com a metáfora, volta a ser apenas natureza.

Em poucos segundos a paisagem se enche de movimento, ruído, disputa, reação. Fiquei olhando.

Foi quando percebi que tinha cometido de novo o mesmo erro.

Confundi economia de movimento com passividade.


A Caatinga não é passiva. A vida daqui procura.

Disputa.
Protege.
Recua.
Ataca.
Espera.
Recomeça.

Há precisão produzida pela necessidade. Mais do que precisão, talvez exista eficiência. Quando o recurso é irregular, desperdício custa caro.

A semente importa. A sombra importa. A água importa. O momento importa. A escolha de onde colocar energia também importa.

Há disputa, ameaça e interrupção. Mesmo depois de encontrar sombra, ainda é necessário permanecer atento. Mesmo depois de descobrir alimento, ainda é preciso proteger o corpo.

Nenhuma adaptação elimina a vulnerabilidade. Ela apenas muda a maneira de atravessá-la. Nenhum organismo é independente do lugar onde vive. A questão está na forma desta dependência.

Essa lógica parece óbvia quando observamos um pássaro procurando alimento numa terra seca. Curiosamente, deixa de parecer tão óbvia quando olhamos para nós mesmos. Construímos vidas inteiras baseadas na hipótese de que haverá sempre mais.

Mais dinheiro depois.
Mais tempo depois.
Mais energia depois.
Mais oportunidade depois.
Mais atenção disponível.
Mais capacidade.
Mais uma chance.

Gastamos como se os ciclos fossem permanentes. Criamos estruturas que funcionam muito bem durante a época de chuva. E nos assustamos quando a seca chega.


A cena do galo-de-campina ficou comigo porque removia qualquer romantização possível. Resistência não tem muita coisa de contemplativa quando observada de perto.

Às vezes envolve correr. Às vezes envolve disputar. Às vezes envolve abandonar aquele pedaço de chão e procurar outro. A vida continua porque muda de estratégia.

Parece simples. Mas levei muito tempo para entender.

A Caatinga propõe uma força diferente daquela que aprendi a admirar. Não a força de conquistar a paisagem. Uma força capaz de ser transformada por ela sem desaparecer.

Uma metamorfose menos grandiosa.

Mais profunda.


Foi então que a ideia que vinha me acompanhando desde a estrada ganhou forma.

A Caatinga não quer ser Amazônia.

Essa frase parece absurda porque atribui vontade a um bioma. Ainda assim, alguma coisa nela me parece profundamente verdadeira.

Passei muito tempo olhando a Caatinga a partir da régua da abundância. Via árvores menores e imaginava árvores maiores. Via períodos longos sem chuva e pensava em lugares onde chove muito. Via terra exposta e procurava verde. Via pequenos fluxos econômicos e imaginava grandes mercados. Via uma cidade pequena e comparava com uma cidade grande.

O modelo já estava pronto na minha cabeça antes mesmo da observação. Eu sabia, sem perceber que sabia, qual paisagem deveria ser considerada mais viva. Qual cidade deveria ser considerada mais desenvolvida. Qual negócio deveria ser considerado mais bem-sucedido. Qual vida deveria ser considerada mais próspera.

Sempre havia alguma coisa para crescer.

Já a Caatinga desmonta essa régua porque sua própria permanência depende de recusar determinadas formas de crescimento. Uma planta que insistisse em sustentar folhas demais durante uma seca prolongada pagaria um preço. Uma estrutura que exigisse abundância constante estaria vulnerável ao primeiro ciclo ruim.

A forma precisa corresponder ao ambiente.

Foi aí que a questão deixou de ser sobre plantas.

Como se toda paisagem seca sonhasse secretamente com uma floresta úmida. Como se toda cidade pequena estivesse apenas esperando a oportunidade de se transformar em metrópole. Como se toda vida precisasse alcançar a mesma forma para ser considerada bem-sucedida.

A Caatinga existe justamente porque é Caatinga. Se tentasse viver como uma floresta úmida, morreria tentando. Ela permanece porque sua forma corresponde ao lugar que habita.


Quantas vezes tentei viver segundo o metabolismo de outro lugar? Quantas vezes construí estruturas pessoais que dependiam de uma abundância permanente? Quantas vezes tratei uma fase de seca como fracasso quando ela talvez estivesse apenas exigindo outra forma? Existe uma violência discreta em medir uma existência pela régua de outro ecossistema.

A comparação parece objetiva.

Renda.
Casa.
Cargo.
Empresa.
Cidade.
Velocidade.
Número de clientes.
Tamanho dos projetos.
Quantidade de coisas que cabem dentro de um mês.

Mas toda métrica carrega uma paisagem escondida. Pressupõe determinada disponibilidade de recursos. Determinado custo. Determinado ritmo. Determinada ideia de sucesso.

E, assim, vivemos como se a vida verdadeira estivesse sempre prestes a chegar, anunciada por alguma nuvem no horizonte. Só que nuvens passam. Às vezes prometem e não entregam. Às vezes descarregam tudo em outro lugar. Às vezes a chuva realmente vem e descobrimos que também é possível receber água demais.

Duas grandes oportunidades simultâneas podem exigir mais do que conseguimos entregar. Uma cidade abundante em estímulos pode consumir a atenção necessária para construir alguma coisa.

O excesso também afoga.

E Remanso sabe disso.


Foi ali que uma pergunta começou a me acompanhar:

qual é o ecossistema da minha própria natureza?


Nos últimos tempos também aprendi a habitar formas que não escolheria como definitivas.

Casa de temporada.
Hostel.
Quarto dividido.
Casa de amigo.
Pousada.

Cada lugar oferece uma estrutura. Cada lugar retira outra. Ainda prefiro uma casa onde eu possa fechar a porta e reconhecer tudo ao redor como meu espaço.

Gosto de conforto. Gosto de silêncio. Gosto de uma mesa boa para trabalhar. Gosto de uma cama grande. Gosto de ar-condicionado quando o calor do sertão resolve lembrar quem manda.

Conseguir atravessar outras condições não me fez desejar menos essas coisas. A experiência apenas separou desejo de dependência. Consigo continuar mesmo quando a forma disponível ainda não é a ideal. E há liberdade nisso.

Se a vida só puder acontecer quando todas as condições estiverem alinhadas, passaremos parte demais dela esperando autorização.

Adaptação não precisa virar identidade. Um lugar de passagem continua sendo um lugar de passagem. Porém ainda assim precisa ser habitável enquanto durar.


Essa percepção também entrou no trabalho. Por muito tempo, oportunidades grandes ocuparam uma parte importante da minha imaginação.

Projetos grandes. Contratos grandes. Movimentos capazes de resolver muitos meses de uma vez.

Eles continuam fazendo sentido. Quando chegam, abrem espaço. Permitem investir. Organizar. Construir. Respirar.

Seria tolo rejeitar a chuva. A Caatinga não rejeita. Quando chove, ela responde. Aquilo que estava recolhido aparece. O verde volta quase imediatamente. A paisagem, então, se transforma.

A questão que comecei a enxergar em Remanso estava no intervalo.

O que acontece entre uma chuva e outra?


O problema é que uma vida incapaz de funcionar sem grandes acontecimentos se torna dependente deles.

A espera ganha peso demais. O céu vira fonte de ansiedade. Qualquer nuvem parece promessa. Qualquer nuvem que passa sem chover parece fracasso.


Foi então que os pequenos fluxos da cidade começaram a me ensinar outra coisa. Existem nutrientes no chão. Menores. Espalhados. Às vezes menos nobres segundo a hierarquia que construímos na cabeça. Mas ainda assim, nutrem.

Uma raiz que só consegue absorver água durante o dilúvio possui um problema. Talvez força também seja desenvolver capilaridade. Encontrar pequenas fontes. Diversificar a maneira como a vida se alimenta. Reconhecer valor onde antes só se reconhecia escala.

Nos últimos dias em Remanso, fiz alguns trabalhos menores. Menores apenas em tamanho econômico. Para quem precisava deles, resolviam problemas reais. E isso mexeu comigo mais do que eu esperava.

Durante muito tempo associei complexidade a valor. Projetos grandes pareciam mais importantes porque exigiam mais estratégia, mais gente, mais horas, mais estrutura. Mas uma coisa simples, entregue para alguém que precisa exatamente dela, também cumpre função.

Voltei ao restaurante.

Arroz.
Feijão tropeiro.
Carne de carneiro.
Cuscuz.

Uma pessoa estava com fome. A comida resolveu. Talvez exista alguma dignidade em parar de exigir pompa em toda solução.


Ao mesmo tempo, enquanto aprendia a colher pequenas sementes do chão, uma grande chuva que eu esperava havia algum tempo finalmente chegou. Um contrato importante se confirmou. O contraste foi quase didático demais.

Passei semanas pensando em como não depender da chuva. Então choveu.

Eu ri quando percebi. A vida tem esse tipo de ironia. Espera a gente construir uma teoria sobre a seca e aparece carregando água.


Mas a experiência não anulava o que eu tinha aprendido.

Completava.

Porque a questão nunca esteve em escolher a seca. Nem em rejeitar abundância. A questão estava em atravessar os dois estados.

Receber quando vem muito.
Preservar quando vem pouco.
Não morrer de sede.
Não se afogar.

Talvez tenha sido isso que comecei a entender por temperança.

Medida.

Capacidade de receber sem se afogar. Capacidade de preservar sem se fechar. Um recipiente adequado ao fluxo.


Remanso conheceu os dois extremos. A cidade antiga desapareceu com água demais. O território ao redor conhece longos períodos com água de menos. No meio disso existe a cidade atual.

Pessoas vivendo.
Negócios abrindo.
Crianças indo à escola.
Caminhões-pipa circulando.
Restaurantes servindo almoço.
Barcos entrando na água.
Sertanejos tocando seus animais.
Gente trabalhando.

A vida não resolveu a contradição. Aprendeu a morar dentro dela. Talvez sistemas vivos façam isso melhor do que nossas teorias.

Nós gostamos de soluções finais. Mas a vida prefere ajustes.


Durante muito tempo associei força à capacidade de ultrapassar.

Montanhas.
Distâncias.
Fronteiras.
Problemas.

Existe algo sedutor nessa imagem. O obstáculo está diante de nós. Reunimos força. Atravessamos. Chegamos ao outro lado. Fim.

Mas a Caatinga me ofereceu outra imagem. Você não atravessa a seca uma única vez.

Ela volta.
A chuva também.
Depois a seca.
Depois alguma chuva.
Depois um período de seca que dura mais do que se esperava.

A paisagem não entrega uma linha de chegada. Entrega ciclos.

Nessa lógica, força passa a incluir continuidade.


É estranho perceber quanto da nossa imaginação foi treinada para admirar picos.

O maior faturamento.
A maior viagem.
O maior projeto.
A maior conquista.
O melhor mês.
A fotografia no ponto mais alto.

Quase nunca fotografamos manutenção.

Não há grande estética em pagar os boletos em dia. Em conservar uma estrutura saudável. Em manter uma boa relação durante anos. Em revisar um sistema. Em trocar o óleo do carro antes de o motor reclamar. Em guardar água. Em preservar energia. Em dizer não para alguma coisa que custaria mais do que entregaria. Em dormir. Em esperar. Em continuar.

Talvez por isso a Caatinga pareça pobre para um olhar acostumado ao espetáculo. Grande parte do que ela faz acontece sem pedir para ser vista.


Comecei essa travessia procurando sinais de vida. Hoje percebo que estava procurando sinais de abundância. São coisas diferentes.

Abundância impressiona.
Vida insiste.
Abundância ocupa.
Vida encontra espaço.
Abundância pode desaparecer quando o fluxo muda.
Vida adaptada aprende a atravessar a mudança.

Foi isso que o mandacaru e o juazeiro já estavam me dizendo quando parei diante deles. Mas eu ainda não sabia ouvir.

Foi isso que Remanso continuou dizendo no ritmo de suas ruas. Foi isso que o galo-de-campina me mostrou enquanto procurava sementes no chão até ser atacado por dois quero-queros.

A vida não estava esperando. Eu é que esperava encontrá-la com outra aparência.


Quando deixei Remanso, não tive a sensação de ter decifrado o lugar. E ainda bem. Lugares que cabem inteiros numa conclusão provavelmente foram pouco observados.

O que levei comigo foi menor. Um mosaico de imagens.

O sertanejo tocando cabras na beira da estrada.
O silêncio do Boqueirão da Onça.
Um mandacaru e um juazeiro lado a lado no descampado.
A primeira visão do São Francisco depois de horas de terra seca.
A ideia desconfortável de uma cidade afogada no meio de uma região marcada pela falta d’água.
O almoço simples cumprindo exatamente sua função.
O dinheiro girando em pequenos ciclos.
O galo-de-campina procurando sementes.
Os quero-queros descendo sobre ele.
A chuva que demorou.
O trabalho pequeno que apareceu antes dela.
E o trabalho grande que chegou depois.

Talvez uma experiência se transforme em pensamento quando as imagens começam a conversar entre si. E essas começaram.


Quando crescer deixa de ser uma opção, alguma coisa precisa permanecer. Essa foi uma das conclusões que surgiram ali. Quase imediatamente, porém, a pergunta mudou de forma: O que precisa permanecer para que crescer volte a ser possível quando o ciclo mudar?

A resposta não parece estar nas folhas. Porque as folhas voltam. Também não está no tamanho. Pois o tamanho muda. Nem na aparência que uma vida assume durante determinada estação. A forma pode precisar ser outra.

O que permanece parece estar mais fundo.

Capacidade de continuar.
Capacidade de reconhecer recurso.
Capacidade de mudar de estratégia.
Capacidade de receber e guardar.
Capacidade de não transformar falta em identidade.
Capacidade de não transformar abundância em dependência.

Raiz.


Talvez o maior engano seja acreditar que só existe uma forma legítima de florescer. Algumas plantas cobrem a paisagem. Outras fazem uma sombra pequena, mas decisiva. Algumas produzem frutos suculentos. Outras sustentam animais, protegem o solo, armazenam água ou simplesmente permanecem de pé onde quase nada conseguiria permanecer.

O juazeiro talvez não impressione pela madeira torta ou pelo fruto. Mas, sob o sol a pino do sertão, a sombra também é uma forma de obra.

Nem toda utilidade precisa ser grandiosa. Nem toda beleza precisa ser abundante. Nem toda vida precisa se expandir para provar que está viva.

Existem períodos em que crescer talvez não seja a tarefa. Talvez seja tempo de aprofundar raízes. Reduzir desperdícios. Reconhecer o essencial. Preservar a obra. Preparar-se para responder quando a estação mudar.

A Caatinga não vence a seca. Ela conversa com ela. Não pede desculpas por sua aparência durante os meses mais duros. Não espera condições perfeitas para existir. Ela sabe que existe vida mesmo quando o verde não está visível.

Aos poucos então, comecei a entender que abundância também muda de significado dependendo do lugar. Pode existir numa copa carregada de folhas. Mas também pode existir numa árvore que faz sombra onde quase nenhuma outra permanece verde.

Se a medida muda com a paisagem, talvez mude conosco também.


Não saí de Remanso glorificando escassez, não. Mas saí menos dependente de que ela acabasse. E há uma diferença nisso.

Continuo desejando chuva.
Continuo desejando conforto.
Continuo desejando projetos grandes.
Continuo desejando uma casa boa.
Continuo desejando expansão.

O desejo não diminuiu. Mas a dependência, talvez. E essa pequena diferença muda muita coisa.

Quando a chuva deixa de ser condição para começar a viver, ela pode voltar a ser aquilo que sempre foi.

Chuva.
Bem-vinda quando chega.
Impossível de comandar.


No dia em que deixei Remanso, coloquei novamente minhas coisas no carro. Já fiz isso tantas vezes que os objetos parecem ter aprendido melhor do que eu a ocupar pouco espaço.

Entrei. Fechei a porta. Liguei o motor. Parti.

A cidade foi ficando para trás. Em algum ponto, olhei pelo retrovisor. Gosto de olhar cidades indo embora. Existe um instante em que elas ainda ocupam parte da imagem e, ao mesmo tempo, já pertencem à miragem do passado.

Voltei os olhos para a estrada de chão.

A Caatinga.
O sol a pino.
A terra.
O mesmo silêncio.

Só que agora eu conhecia alguns nomes. Isso muda a paisagem.

Mandacaru.
Juazeiro.
Galo-de-campina.
Quero-quero.
O Velho Chico.
Remanso.

O lugar continuaria existindo depois que eu passasse. As pessoas continuariam abrindo seus comércios. O restaurante continuaria servindo almoço. O pássaro continuaria procurando sementes. A água continuaria subindo e descendo. A seca continuaria seca.

E, em algum momento, choveria.


Quando eu estava indo embora, percebi que havia uma nuvem se formando atrás de mim. Quero guardar essa imagem. Eu seguindo pela estrada. A Caatinga diminuindo no retrovisor. E, ao longe, uma massa escura começando a ocupar o céu.

Era a chuva chegando. Finalmente. Só que eu já estava indo embora.

Durante algum tempo, essa cena teria me parecido injusta. Esperar tanto pela chuva e partir justamente quando ela se aproxima. Mas naquele momento, encontrei beleza nisso.

Porque a chuva nunca precisou chegar para mim. Ela não fecha o meu arco. Não confirma meu aprendizado. Não responde às minhas perguntas. Não acontece para que eu possa assistir.

A chuva pertence ao ciclo daquele lugar. Eu é que estava de passagem.


Depois que fui embora, talvez tenha chovido muito. Talvez o chão que atravessei seco tenha mudado de cor. Talvez galhos que pareciam mortos tenham respondido. Sementes que nunca vi podem ter germinado. O galo-de-campina encontrou outras coisas para comer.

O mandacaru fulorou. O juazeiro continuou fazendo sombra. A paisagem que conheci assumiu outra forma. E eu não estava mais lá para ver.

Durante semanas pensei que a grande lição da Caatinga estivesse em resistir até a chuva chegar. No fim, entendi alguma coisa mais profunda.

A vida já estava acontecendo antes. A chuva apenas revelava outras possibilidades dela.

Eu procurava a chuva como prova de que havia vida.

A Caatinga me ensinou a procurar sementes.


Mas a pergunta que encontrei ali continua comigo. Qual é o ecossistema da minha própria natureza?

Ainda não sei responder completamente. Talvez também não exista uma resposta definitiva. Mas algumas coisas começaram a ficar claras.

Não quero uma vida dependente de um único tipo de chuva. Não quero confundir grandeza com volume. Não quero construir uma estrutura tão cara que qualquer período de seca se transforme em ameaça.

Movimento importa.
Autonomia importa.
Criar importa.
Espaço importa.

E algumas raízes precisam viajar comigo. Isso já é alguma coisa.

Talvez algumas perguntas, assim como ecossistemas, precisem primeiro ser habitadas.

Mas, quando penso na estrada que atravessei, na cidade que aprendeu a viver entre a falta e o excesso, nas pequenas formas de vida que continuavam se movendo sob um sol implacável, começo a desconfiar de alguma coisa.

Meu bioma talvez não seja definido pela quantidade de chuva que recebo, mas por aquilo que consigo manter vivo entre uma chuva e outra.

No retrovisor, a nuvem continuava se formando.

Eu segui.

E ela também.

— continue acompanhando —

Para ler com calma, fora do feed.

Quando um ensaio novo nasce aqui, ele vai antes pra quem está em casa. Não é newsletter — é transmissão.