— ensaio —

A cidade onde fui outro

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A Estrada


Cheguei em Seabra sem avisar quase ninguém.

Talvez porque eu não quisesse transformar a chegada em acontecimento. Talvez porque partidas e retornos sempre tenham, para mim, alguma coisa difícil de administrar. Talvez porque eu já tenha vivido despedidas demais para confiar muito nas cerimônias que fazemos em torno delas.

Avisei apenas um amigo.

O suficiente para ter onde ficar. O suficiente para não chegar completamente solto. O suficiente para que a cidade não me recebesse como espetáculo, mas como quem retorna por uma fresta.

Quando entrei, ele estava sem sinal.

Então eu fiz o que a estrada ensina a fazer quando o plano falha: continuei.

Desci pela pista, dobrei à esquerda, passei pela rua dos bares, dos restaurantes, dos pontos que um dia formaram o mapa cotidiano da minha vida ali. Algumas coisas tinham mudado. Outras permaneciam com uma teimosia quase ofensiva. O corpo reconhecia antes da cabeça. O volante virava como se ainda obedecesse a uma memória antiga dos braços.

Eu não precisava pensar muito para saber por onde ir.

E isso, de algum modo, me assustou.

Depois de rodar o Nordeste, depois de voltar para São Paulo, depois de atravessar Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Brasília, depois de ter sido tantas versões de mim mesmo em tão pouco tempo, havia uma parte do meu corpo que ainda sabia atravessar Seabra como se eu tivesse saído no dia anterior.

Foi assim que cheguei à antiga casa.

Não por decisão racional.

Por gravidade.

Parei diante dela.

A casa já não era a mesma. Os novos donos tinham reformado, mexido, adaptado, reorganizado. A fachada carregava algo do que foi, mas já apontava para outra vida. Eu fiquei ali, olhando por fora, tentando entender o que exatamente se sente quando se retorna ao lugar que um dia significou segurança e percebe que ele já não tem mais nenhuma obrigação de sustentar essa sensação.

Aquela casa já tinha sido lar.

Já tinha sido abrigo.

Já tinha sido a prova concreta de que eu tinha um chão depois de tanto movimento.

Naquele momento, era apenas uma casa onde outras pessoas viviam outra história.

E isso não era triste.

Era estranho.

Existe uma diferença.

A tristeza pede consolo.

A estranheza pede escuta.

Fiquei ali por um tempo curto, talvez um minuto, talvez menos, mas certos minutos não obedecem ao relógio. A casa não me expulsava. Também não me chamava. Ela simplesmente existia. Como se dissesse, sem dizer: eu cumpri o meu papel.

E talvez essa tenha sido a primeira frase real da minha volta.

Não dita por ninguém.

Dita por uma parede.


Seabra foi, durante alguns anos, um ponto de pouso.

Cheguei ali depois da Patagônia, depois do Chile, depois de Punta Arenas, depois de ter visto uma vida inteira desmanchar com a pandemia. O turismo tinha parado, o hotel tinha fechado, a agência que eu começava a construir perdeu chão antes de amadurecer. Eu voltei ao Brasil carregando menos certezas do que quando saí.

E Seabra, naquele momento, ofereceu algo que eu precisava.

Raiz.

A cidade do meu pai. A história do meu avô. Tios, primos, memórias familiares, nomes conhecidos, ruas pequenas, a Chapada ao redor, uma paisagem que não precisava me explicar tudo porque parte dela já estava inscrita antes de mim.

Havia ali um tipo de pertencimento anterior à escolha.

Eu podia andar pela cidade sem ser completamente estrangeiro.

Depois de tantas camas provisórias, depois de hostels, quartos temporários, trabalhos em troca de hospedagem, cidades em que ninguém sabia meu nome, Seabra me deu uma possibilidade rara: aterrissar.

Não era apenas uma cidade.

Era um intervalo.

Um lugar onde eu podia parar de me justificar por existir.

Durante a pandemia, isso teve peso. Durante a reconstrução, isso teve peso. Durante o nascimento do meu novo ofício, isso teve peso. Foi ali que o turismo foi ficando para trás e a tecnologia foi ganhando corpo. CRM, automação, sistemas, processos. O que depois viraria método, trabalho e linguagem começou, em parte, naquele chão.

Mas lugares que salvam em um momento podem deixar de chamar em outro.

Isso não diminui o lugar.

Só mostra que a vida continuou.


Voltar para uma cidade onde se viveu intensamente é uma experiência ambígua.

Você imagina que está voltando ao passado.

Mas o passado nunca está lá inteiro.

O que existe é um cenário parcialmente preservado, parcialmente adulterado, parcialmente indiferente. Algumas fachadas mudam. Alguns pontos desaparecem. Alguns rostos envelhecem. Alguns hábitos continuam. Alguns lugares, para sua surpresa, insistem em permanecer quase iguais.

O supermercado, por exemplo.

Havia algo de perturbador em entrar ali e ver as gôndolas quase como antes. Os produtos no mesmo lugar. A lógica do espaço intacta. A circulação parecida. Como se, enquanto eu atravessava estados, praias, estradas, projetos, quedas, reinvenções e anos internos, aquele pequeno mundo tivesse simplesmente seguido fiel a si mesmo.

Essa permanência me intrigou mais do que as mudanças.

As mudanças, eu entendia.

Um bar que fecha. Um restaurante que vira loja. Uma casa que é reformada. Uma rua que ganha outro comércio. Tudo isso faz sentido. A vida precisa se mover. Mas a permanência tem uma força mais misteriosa. Ela confronta você com outra coisa: a possibilidade de que o mundo não tenha se transformado na mesma proporção em que você se transformou.

E aí surge uma sensação curiosa.

Como se você voltasse ao cenário de uma peça antiga.

O palco ainda está lá.

Alguns objetos também.

Mas a peça acabou.

O enredo não é mais o mesmo. Os personagens não ocupam mais os mesmos lugares. Alguns saíram de cena. Outros continuam ali, mas em outro papel. E você mesmo, que um dia foi protagonista daquele recorte, agora entra como visitante.

A cidade não sabe disso.

Ela não tem obrigação de saber.

Para ela, você apenas voltou.

Para você, no entanto, a volta carrega todos os quilômetros que ninguém viu por dentro.


Durante muito tempo, vivi com a sensação de que os ciclos precisavam fechar bem.

Não necessariamente perfeitos, porque nada fecha perfeito. Mas fechados de algum modo. Nomeados. Integrados. Guardados em alguma prateleira interna onde eu pudesse dizer: isso foi vivido, isso foi compreendido, isso cumpriu seu papel.

Talvez seja uma tentativa de não deixar a vida escapar em fragmentos.

Talvez seja uma defesa.

Talvez seja método.

Talvez seja só a maneira como minha consciência aprendeu a sobreviver a muitas mudanças.

Seabra era um desses ciclos.

Um ciclo com casa, relacionamento, pandemia, família, amigos, trabalho remoto, raízes, Chapada, bares, noites, conversas, conflitos, beleza, cansaço, acolhimento e dor. Um ciclo denso demais para ser reduzido a uma palavra só.

Quando fui embora, houve fechamento.

Mas fechamento não é a mesma coisa que integração.

Às vezes a gente encerra uma coisa porque precisa sair dela.

Só depois entende o que ela significou.

Talvez eu tenha voltado por isso.

Não para reabrir o ciclo.

Mas para olhar o que restou dele sem precisar fugir.


O Tem Dendê já não existia como antes.

E isso talvez tenha me atingido porque ele não era apenas um bar.

Era uma cena de origem.

Quando eu cheguei em Seabra, morava sozinho. Era ainda um tempo atravessado pela pandemia, com a vida social limitada, as possibilidades reduzidas, o mundo meio suspenso. Em uma noite qualquer, desci para comprar algo simples para jantar. Presunto, queijo, leite, alguma coisa assim. Nada com cara de destino.

Entrei em um mercadinho que funcionava de dia como mercadinho e à noite como bar.

Peguei minhas coisas.

Fui pagar.

E o dono me olhou.

“Você é nerd?”

A pergunta me pegou de lado.

“O quê?”

“Você é nerd?”

“Um pouco”, respondi.

Ele continuou:

“Você gosta de Tears for Fears?”

Gostava.

“Então chega aí. Senta aí.”

Eu disse que não. Que só tinha ido comprar umas coisas. Que estava indo para casa. Ele mandou eu pegar uma cerveja. Recusei de novo. Ele insistiu. Na terceira vez, parei de resistir.

Peguei a cerveja.

Sentei.

Ouvimos música.

Conversamos.

E assim nasceu uma amizade.

Não com uma apresentação formal. Não por afinidade cuidadosamente construída. Não por uma dessas perguntas adultas sobre profissão, planos e origem. Nasceu de uma pergunta improvável, no balcão de um mercadinho-bar, em uma cidade do interior da Bahia, durante uma fase em que eu ainda tentava entender quem estava me tornando depois de tanta ruptura.

“Você é nerd?”

“Você gosta de Tears for Fears?”

Às vezes a vida abre portas com senhas estranhas.

A partir dali, o bar foi virando ponto. Pessoas foram aparecendo. Um grupo se formou ao redor de música, cerveja, conversas e convivência. O Tem Dendê não era apenas um estabelecimento. Era um pequeno centro gravitacional. Um lugar onde a solidão da pandemia começava a perder força. Um ponto em que a cidade deixava de ser apenas raiz familiar e começava a virar rede afetiva.

Voltar e descobrir que aquele lugar já não era aquilo me lembrou algo simples e duro: nem todo espaço que sustentou uma fase sobrevive como espaço.

Algumas memórias perdem o endereço.

Continuam existindo, mas já não podem ser visitadas por fora.

Só por dentro.


A antiga casa me ensinou isso de outra forma.

Depois de vender a casa, uma família se mudou para lá. Um senhor e uma senhora, já muito idosos. Para recebê-los, a casa foi reformada. Adaptada. Reorganizada para acessibilidade, para outra rotina, para outro corpo, outra idade, outra necessidade.

O senhor faleceu.

A senhora permaneceu.

A casa, então, virou também uma espécie de apoio para a família, que vinha da zona rural para a cidade. Filhos, parentes, deslocamentos, cuidado, presença. A casa que um dia tinha sido o meu lugar de aterrissagem passou a sustentar outra família.

Quando entrei novamente, percebi que minha memória já não batia com a arquitetura.

Onde era meu quarto, agora era cozinha.

Onde era cozinha, agora era quarto.

Alguns móveis ainda estavam ali, mas em outro lugar. Alguns reformados, outros com nova função, outros parecidos o suficiente para despertar reconhecimento e diferentes o suficiente para impedir qualquer ilusão de posse.

A mesa e as cadeiras ainda existiam.

Mas já não me pertenciam nem mesmo simbolicamente.

Estavam incorporadas a outra ordem.

Isso me atravessou.

Porque a gente fala de desapego com facilidade quando está longe dos objetos. Mas entrar em uma casa que foi sua e ver que ela aprendeu a viver sem você é outra coisa.

Ali, ficou claro: nada é nosso de verdade.

Não do jeito que imaginamos.

A propriedade é um acordo temporário. Um nome em um papel, uma chave na mão, uma rotina repetida, um corpo que ocupa, uma memória que se forma em torno de paredes. Mas a casa, em si, atravessa donos. Atravessa funções. Atravessa histórias. Ela nos abriga por um tempo, e depois abriga outros.

O que chamamos de “minha casa” talvez seja apenas o período em que um lugar cumpre uma função em nós.

Aquela casa cumpriu.

E cumpriu muito bem.

Foi casa do meu retorno. Casa da pandemia. Casa da reconexão com a história do meu pai. Casa de silêncio. Casa de conflito. Casa de trabalho. Casa de começo. Casa de fim. Casa onde eu tentei construir uma vida que, em algum ponto, deixou de caber.

Depois, deixou de ser minha.

E continuou.

Não como traição.

Como vida.


Existe uma humildade profunda em perceber que os lugares continuam sem a gente.

Não apenas as cidades.

As casas.

Os bares.

As famílias.

Os grupos.

Até os objetos.

Por alguns dias, eu fiquei olhando para o que tinha desaparecido.

O bar que já não era bar. O restaurante que virou outra coisa. A casa transformada. O cenário antigo sem a peça antiga.

Mas então, na casa do Jacob, aconteceu o contrário.

Algumas coisas estavam lá.

Não como relíquias.

Como uso.

A garrafa térmica que tinha sido minha continuava servindo café.

A colher de pau ainda estava na cozinha.

A tábua de madeira continuava sobre alguma superfície de vida.

Alguns objetos de decoração tinham encontrado outro canto.

Até plantas do meu antigo jardim, que eu tinha doado quando fui embora, continuavam vivas.

Isso me tocou de um jeito diferente.

Porque não era o passado preservado.

Era o passado incorporado.

Eu não tinha deixado monumentos. Não havia placa, homenagem, altar, nenhuma prova dramática de que eu tinha passado por ali. Mas havia vestígios silenciosos. Coisas que deixaram de ser minhas sem deixar de carregar algo da minha passagem.

A garrafa não lembrava de mim.

Ela servia café.

E talvez isso seja mais bonito.

A colher não guardava saudade.

Ela continuava cumprindo função.

A planta não contava minha história.

Ela crescia.

Passei dias procurando vestígios do passado nos lugares que mudaram.

Naquela manhã, percebi que algumas partes do passado tinham sobrevivido justamente porque deixaram de ser minhas.

Há uma diferença enorme entre abandonar algo e entregar algo.

Quando fui embora de Seabra, doei o que não podia levar. Objetos pequenos, sobras de casa, coisas úteis, coisas sem grande valor para quem olha de fora. Eu estava desmontando uma vida. Separando o que cabia no próximo trecho do que precisava ficar.

E algumas dessas coisas ficaram.

Não presas à minha memória.

Mas integradas ao cotidiano de um amigo.

Talvez seja assim que a passagem de alguém permanece de modo mais honesto.

Não na narrativa que contamos sobre nós.

Mas na matéria discreta que continua servindo.

Uma planta que cresce em outro quintal.

Uma tábua que ainda recebe pão.

Uma garrafa que ainda guarda café quente.


Esse contraste me ajudou a entender algo sobre a volta.

Eu cheguei procurando reconhecimento em lugares.

Mas encontrei continuidade em funções.

A casa já não era minha, mas continuava servindo.

O bar já não era o mesmo, mas a amizade que nasceu ali ainda existia.

Os objetos já não me pertenciam, mas continuavam úteis.

A cidade já não tinha uma missão nova para me entregar, mas ainda oferecia o espelho necessário para eu ver o que tinha terminado.

Talvez a vida seja menos sobre preservar formas e mais sobre permitir que as funções se transformem.

Uma casa pode deixar de ser lar e virar apoio para outra família.

Um objeto pode deixar de ser posse e virar legado cotidiano.

Um lugar pode deixar de ser destino e virar memória integrada.

Uma cidade pode deixar de ser chamada e virar raiz.

E raiz não precisa prender.

Raiz também pode apenas lembrar de onde algo cresceu.


Cheguei em Seabra durante o São João.

Festa de interior da Bahia não é detalhe. É uma força. A cidade muda de ritmo, de luz, de circulação. Pessoas aparecem, ruas se enchem, sons atravessam a noite, encontros acontecem no meio da multidão.

Eu fui.

Vi pessoas que não via há muito tempo.

Algumas me cumprimentaram com carinho. Outras com surpresa. Outras com aquela alegria breve e suficiente de quem diz “você está aqui?” e segue. Houve abraços, acenos, pequenas conversas, reconhecimentos rápidos.

Mas nada além disso.

E talvez aí tenha caído uma das fichas mais importantes de toda a volta.

Ninguém acompanha a nossa narrativa com a intensidade com que nós a vivemos.

Eu tinha passado dois anos e meio rodando, mudando, atravessando Nordeste, Centro-Oeste, São Paulo, estrada, trabalho, perdas, reconstruções, nigredo, expansão, silêncio, sistema, retorno. Eu tinha vivido tudo isso por dentro. Tinha carregado cada etapa como acontecimento. Tinha me transformado em contato direto com cada deslocamento.

Mas para muitas pessoas, eu apenas tinha voltado.

Como se tivesse saído ontem.

Como se minha vida inteira entre a ida e a volta fosse uma espécie de intervalo sem legenda.

Isso poderia soar triste.

Mas, naquele momento, foi libertador.

Porque percebi que uma parte enorme da autoimagem que tentamos controlar existe para um público que não está assistindo com tanta atenção assim.

A gente imagina uma plateia constante.

Não existe.

As pessoas estão vivendo suas próprias vidas. Seus boletos, suas famílias, seus amores, seus medos, seus hábitos, suas repetições, suas pequenas esperanças. Elas não estão acompanhando nossa epopeia interna. Não sabem o peso de cada decisão. Não viram a noite em que quase desistimos. Não sentiram a estrada do mesmo jeito. Não sabem o que significa voltar.

E tudo bem.

Talvez seja até melhor assim.

Porque, se ninguém está acompanhando tudo, talvez eu não precise representar tanto.

Não preciso chegar provando que mudei.

Não preciso atualizar ninguém sobre a versão nova de mim.

Não preciso fazer apresentação de slides da minha travessia.

Não preciso convencer a cidade de que vivi.

Eu vivi.

Isso basta.


Essa percepção tocou em um ponto mais profundo.

Durante muito tempo, carreguei uma necessidade de imagem clara. Não necessariamente vaidade superficial, mas uma espécie de controle narrativo. Querer que as pessoas entendam o que estou fazendo. Que percebam a coerência. Que reconheçam a transformação. Que não reduzam minha vida a uma impressão antiga.

Mas voltar a Seabra me mostrou o limite disso.

As pessoas vão lembrar de quem você foi.

Vão te encaixar no que conheceram.

Vão reconhecer partes suas que talvez já não sejam centrais.

Vão não saber.

Vão não perguntar.

Vão não acompanhar.

E isso não é injustiça.

É apenas a realidade.

Ninguém tem obrigação de ser testemunha completa da nossa individuação.

Talvez amadurecer seja desistir de ser compreendido por inteiro.

Não por amargura.

Por liberdade.

O que aconteceu comigo nesses anos não precisava fazer sentido para minha mãe, meu irmão, minha família de Seabra, meus amigos antigos ou qualquer pessoa que viu pedaços da minha vida pela internet. O que vivi não precisava se transformar em consenso público.

A travessia fez sentido em mim.

E talvez esse seja o único lugar onde ela realmente precisava fazer sentido.


Havia também uma pessoa que eu não queria encontrar.

Não por desejo reprimido.

Não por cobrança.

Não por vontade de dizer algo.

Justamente pelo contrário.

Não havia nada que eu quisesse dizer.

Nada que eu quisesse ouvir.

Nada que eu quisesse reabrir.

Às vezes, a ausência de assunto é uma forma muito clara de encerramento.

Essa pessoa fazia parte de um capítulo difícil da minha vida em Seabra. Um relacionamento que teve peso, transformação, dor e fim. O tempo passou. Dois anos e meio. O contato se encerrou. A vida seguiu.

Ainda assim, voltar a uma cidade pequena onde certas pessoas podem aparecer em qualquer esquina tem um efeito particular sobre o corpo.

Nos primeiros dias, percebi que evitei algumas situações.

Uma festa em Iraquara, por exemplo. Eu queria ir. Tocaria uma banda de que eu gosto. Haveria milhares de pessoas. A chance de encontro talvez nem fosse grande. Mas existia. E eu não quis atravessar essa possibilidade.

Eu me poupei.

Durante muito tempo, talvez eu julgasse isso como medo.

Hoje vejo com mais nuance.

Nem todo cuidado é fuga.

Nem todo limite é covardia.

Nem todo passado precisa ser olhado nos olhos para ser encerrado.

Algumas histórias já disseram tudo o que tinham para dizer. Forçar reencontro, nesses casos, pode ser menos maturidade do que vaidade dramática. A vida não precisa de cenas finais quando a verdade já está clara.

Depois, no São João, encontrei uma sobrinha dela.

Ela passou por mim e fez uma expressão de espanto.

Eu acenei com a cabeça.

Um cumprimento mínimo.

Um reconhecimento sem abertura.

E, de algum modo, aquilo resolveu uma pequena tensão. Se antes havia a possibilidade de que minha presença na cidade fosse uma informação suspensa, agora provavelmente já não era. E isso me deu uma tranquilidade inesperada.

O fantasma tinha sido avisado.

E nada aconteceu.

Às vezes, basta isso.


Fui percebendo, então, que eu não queria ver todo mundo.

E dizer isso com honestidade também faz parte da maturidade.

Há uma fantasia generosa sobre retornos: a ideia de que a gente volta e deseja rever todos, abraçar todos, celebrar todos os vínculos, reativar todas as pontes. Mas a vida real é mais seletiva. Algumas pessoas importam. Outras fizeram parte de um cenário. Algumas relações continuam vivas. Outras eram apenas convivência de época.

Nem todo mundo que atravessou uma fase tem direito ao nosso presente.

E isso não precisa virar desprezo.

É apenas discernimento.

Vi quem precisava ver.

Vi quem apareceu.

Algumas pessoas me surpreenderam pela receptividade. Outras permaneceram exatamente na medida esperada. Outras não fizeram falta. E, no fim, percebi que o retorno não era uma via-sacra social.

Eu não estava ali para provar presença.

Estava ali para entender ausência.


Aos poucos, uma imagem foi ficando mais clara.

Era como voltar a um território de jogo onde as missões já tinham sido cumpridas.

Os personagens ainda estavam ali.

Os cenários também.

Algumas rotas continuavam abertas. Alguns diálogos poderiam ser repetidos. Alguns lugares ainda podiam ser visitados. Mas o chamado tinha desaparecido.

A missão principal já tinha sido feita.

As missões secundárias também.

Restavam obrigações menores, pendências de cartório, documentação da casa, ajustes práticos, coisas que pertencem mais ao mundo da burocracia do que ao mundo do destino.

Isso não diminuía Seabra.

Pelo contrário.

Reconhecer que um lugar cumpriu seu papel talvez seja uma das formas mais bonitas de honrá-lo.

Seabra teve função demais na minha vida para que eu exigisse dela ainda mais.

Ela foi a cidade do meu pai.

Foi a cidade do meu avô.

Foi o território da minha reconexão com raízes.

Foi meu pouso depois da Patagônia.

Foi abrigo durante a pandemia.

Foi casa quando eu precisava de chão.

Foi palco de amizade.

Foi cenário de amor e fim.

Foi laboratório de trabalho remoto.

Foi onde parte do meu ofício digital ganhou corpo.

Foi onde vivi dores que também me formaram.

Foi onde entendi que raiz pode acolher, mas também pode segurar além da hora.

O que mais eu poderia pedir?

Há lugares que nos dão tanto que, em algum momento, a gratidão precisa incluir a partida.


Talvez por isso eu tenha começado a sentir vontade de ir embora antes mesmo de terminar tudo.

Não por rejeição.

Por escuta.

Minha rotina estava quebrada. E eu vinha de várias quebras de rotina seguidas. A estrada tem seus encantos, mas também cobra. Cada deslocamento reorganiza sono, trabalho, alimentação, foco, corpo, sistema, finanças, presença. E havia em mim uma necessidade crescente de retomar eixo.

Seabra já tinha me mostrado o que precisava mostrar.

Ficar além disso seria começar a confundir gratidão com apego.

Há uma hora em que permanecer vira ruído.

E partir vira respeito.

Respeito pelo lugar.

E por si mesmo.

Voltar a Seabra talvez tenha sido sentar num tribunal íntimo, sem precisar que a cidade desse o veredito.

Porque a cidade não tinha como julgar a minha travessia.

Ela não viu tudo.

E nem precisava ver.

O julgamento, se havia, era meu.

Não para me condenar.

Mas para reunir as partes.


No fundo, talvez todo retorno importante tenha algo disso.

A gente volta a um lugar esperando reencontrar o que deixou.

Mas encontra outra coisa.

Encontra a distância entre memória e matéria.

Encontra a vida seguindo.

Encontra pessoas que não carregam nossa história como nós carregamos.

Encontra casas que mudaram de função.

Encontra objetos que sobreviveram melhor do que certas lembranças.

Encontra a própria necessidade de ser reconhecido — e, se tiver sorte, começa a se libertar dela.

Seabra não me recebeu como herói.

Ainda bem.

Também não me rejeitou.

Ela apenas me deixou entrar, circular, olhar, sentir, resolver algumas pendências e perceber que já não havia ali uma nova missão escondida.

A cidade não precisava me entregar revelação alguma.

A revelação era justamente essa:

não havia mais nada a cobrar.


Voltar ao lugar onde fui outro me fez perceber que o passado não precisa permanecer intacto para continuar sendo verdadeiro.

A casa pode mudar.

O bar pode desaparecer.

O quarto pode virar cozinha.

A cozinha pode virar quarto.

A mesa pode mudar de lugar.

As pessoas podem seguir suas vidas.

A cidade pode não se impressionar com a sua volta.

O antigo amor pode não precisar de reencontro.

O amigo pode usar sua garrafa térmica todas as manhãs.

As plantas podem crescer em outro jardim.

E, ainda assim, tudo o que foi vivido permanece.

Não como posse.

Como integração.

Talvez maturidade seja isso: parar de exigir que o mundo preserve os cenários que sustentaram nossas versões antigas.

A vida não tem obrigação de manter museus para a nossa identidade.

Ela transforma tudo.

E, quando somos capazes de olhar sem tentar recuperar, algo em nós descansa.


Por isso, se eu digo que Seabra não me deve mais nada, não digo com frieza.

Digo com gratidão.

Ela não me deve acolhimento, porque já acolheu.

Não me deve casa, porque já foi casa.

Não me deve pertencimento, porque já me deu raiz.

Não me deve explicação, porque já me mostrou o suficiente.

Não me deve reencontro, porque já me devolveu a medida dos vínculos.

Não me deve futuro, porque o papel dela estava no passado — e um passado integrado não precisa continuar se oferecendo como destino.

E eu também não devo mais nada a ela.

Não devo provar que mudei.

Não devo retomar laços que já cumpriram função.

Não devo aparecer para quem não me procura.

Não devo transformar toda memória em ritual.

Não devo ficar para honrar o que já foi honrado.

Posso apenas reconhecer.

E partir.


Talvez o nome deste texto seja mesmo A cidade onde fui outro.

Porque foi isso que encontrei ao voltar: uma cidade onde uma versão inteira de mim viveu, amou, sofreu, trabalhou, recomeçou e terminou.

Mas, pensando melhor, depois de escrever tudo isso, talvez eu mudasse o título.

A cidade onde fui outro continua forte.

Mas existe um título que talvez esteja ainda mais próximo do que eu vivi:

O lugar que não me deve mais nada.

Porque, no fundo, este texto não é sobre Seabra.

Nem sobre nomadismo.

Nem sobre voltar para casa.

É sobre o raro momento da vida em que você retorna a um lugar importante e percebe que ele já não está te pedindo nada.

E você também não está pedindo nada dele.

Vocês apenas se reconhecem.

Como dois velhos amigos que sabem exatamente quem o outro foi.

Seabra não me deve mais nada.

E talvez essa seja a forma mais bonita de reconhecer o valor de um lugar: perceber que ele cumpriu o que tinha que cumprir, sem exigir que continue sendo palco daquilo que já terminou.

Voltei procurando vestígios do passado.

Encontrei algo melhor.

A vida seguindo adiante com pedaços do que ficou.

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