Ricardo Longo · entre a estrada e o sistema

O Quinto Cômodo

A casa tem quatro cômodos — a estrada, o sistema, o método, o olhar.
Este é o quinto.
O único que não é meu.

Ele não está no mapa da casa.
Quem chega aqui, chegou por conta — e por isso pode ficar à vontade.

Tudo que você tocar daqui pra baixo é compartilhado, ao vivo, com todos os outros que acharam esta porta.
Alguns gestos ficam.
Outros, o tempo apaga.
Os dois são a graça.

desça e toque na casa

i · o rio

A travessia é coletiva

Empurre o barco rio abaixo.
Ninguém atravessa o mesmo rio sozinho, nem o encontra parado no mesmo lugar duas vezes.

ii · o jardim

O jardim que ninguém termina

Mova as pedras.
A areia se abre em anéis ao redor delas e, quando duas se aproximam, as ondas se fundem em novos desenhos.
O próximo viajante vai desfazer o seu.

Um arruma, outro desarruma.
Aqui se pratica o desapego — a beleza está em arranjar sabendo que não vai durar.

iii · o altar

As velas dos que passaram

Toque no altar e acenda uma vela onde quiser.
Ela arde por alguns dias e então se apaga sozinha — como toda passagem.

toque em qualquer ponto para acender uma vela

0 velas ardendo agora

iv · a fonte

O verso que se desfaz

Uma só frase mora aqui.
Quando você reescreve, a de antes some para sempre, e a casa passa a dizer o que você deixou.

A casa estava em silêncio quando você chegou.

a frase atual da casa

v · o livro

Deixe um vestígio

Aqui, ao contrário da fonte, nada se desfaz.
Uma palavra, um nome, um traço fica no livro da casa para sempre.

    Ninguém escreveu ainda. Seja o primeiro vestígio.